domingo, 4 de abril de 2010

Neblina

"A noite parecia mais escura naqueles dias. Era a neblina que envolvia com seu mistério os postes de luzes amareladas, os prédios com suas poucas janelas acesas e os faróis dos outros carros que se locomoviam lentamente, desviando um dos outros, das ruas pequenas, dos sinais de trânsito que os impediam de seguir em frente e manter uma velocidade mediana.

O rádio permanecia ligado e, a cada música, o motorista tirava o pé do acelerador ou fazia com que o carro corresse mais. Dependia do ritmo, da forma com que ele fosse envolvido. O condutor não fazia de forma abrupta as oscilações de velocidade. Mantinha o pé encostado ao eixo de aceleração, a mão direita, quando necessário tocava levemente o câmbio, mas maioria do tempo, auxiliava a mão esquerda que permanecia ao volante, segurando também um cigarro que queimava lentamente.

Os olhos do condutor percorriam, por um segundo, todas aquelas ruas, uma por uma, ele as visitava, conseguia enxergar cada casa, cada cão de guarda, cada jardim bem cuidado ou não, cada reflexo da televisão ligada no vidro da porta. Quando se notou, tudo parecia em câmera lenta, apenas o que suas lentes recebiam seria o flash de luz dos automóveis, das poucas motocicletas, dos semáforos, e seus possíveis reflexos nas vitrines das lojas, nos tênis brancos luminosos dos transeuntes, nos retrovisores em movimento. O que captava: reflexos, sinais, todos lentamente processados. Talvez refletissem a paz de espírito que sentisse. Mas não era isso. Diante decisões, problemas, dúvidas, o motorista apenas dirigia na neblina.

Ele não estava sozinho. Tinha alguém ao seu lado. Em silêncio, mas estava lá. O mesmo silêncio que ele ouviu na outra noite. Ambos permaneciam quietos, o sinal fechou. O carro foi parando lentamente, enquanto a velocidade ia diminuindo, os olhos do motorista abaixavam-se para o asfalto negro, úmido da chuva que havia caído durante a tarde. A mesma música da outra noite começava a tocar. As mãos do condutor começavam a tremer, o sangue parecia gelar a cada batida, um arrepio subia pelas costas. Estava lembrando-se da outra noite.

O silêncio era tanto que se dava para ouvir a respiração deles. Não estavam mais conversando, discutindo. O que se ouvia eram as respirações ofegantes. Ele, o motorista que antes era o ouvinte, não precisaria se aproximar da porta, nem sequer fazer algum esforço. O que acontecia naquele quarto era passível de visualização. Naquela noite, a neblina não estava do lado de fora, estava dentro dele, do quarto, da casa. As mãos dele tocando com força as costas dela, os corpos despidos que se juntavam frente a frente, os seios dela roçavam no tórax nu. A respiração parecia aumentar, o ar ficava sem oxigênio como se uma fumaça branca tomasse o quarto lentamente. Ela estava sentada sobre ele, os seus membros já tocados, molhados de um quase gozo, de um delírio que guardavam para o final.

O movimento começava a ficar intenso, ela se virava sobre seus joelhos no colchão. O rapaz em estado de ereção encaixava-se nela por trás, segurando-a pelos cabelos, como se fosse trotar em um cavalo arredio. Ela agarrava o lençol bege da cama, estendendo seus braços sobre a cama vazia. Os olhos de ambos permaneciam fechados, abriam-se lentamente para um descanso da mente, para que os olhos pudessem gravar aos poucos o momento, a repetição. Ele, com seu membro ereto, ia para frente e para trás em um movimento que se firmava mais forte, a cada final de ciclo. Os gemidos baixos se faziam alto, os toques de pele que estalavam se tornavam presentes a cada segundo mais. As mãos dele agora seguravam os seios dela, as pontas dos dedos acariciavam ambas as auréolas, pressionadas pelos entre dedos, o que a fazia soltar um grito abafado de prazer.

Do outro lado da porta, os olhos fechados faziam da cena mais lenta na cabeça do quase espectador. Os corpos voltavam a se encontrar frente a frente, boca a boca. As línguas dançavam em um ritmo que seguia a música tocada pelos membros, freneticamente, aumentando. Os dentes eram colocados no pescoço, uma mordida para que se evitasse soltar mais um grunhido, a respiração permanecia forte, mas era interrompida pelos lábios dela que sugavam a pele do pescoço dele, fazendo com que ele puxasse o ar pelos dentes. Ele começava a abaixar a cabeça e começava a lamber a pele nua da garota, beijando-a, mordendo-a, até que ele chegasse no meio dos seus seios. Tudo acompanhado pelo compasso de seus membros que permaneciam juntos, vezes mais longe os pelos, vezes mais próximos.

A inércia do lado de fora de opunha ao movimento que se fazia dentro, do barulho constante. Como os carros que tinham passado pelo sinal aberto, enquanto o motorista de olhos baixos esperava. A neblina na rua fazia com que tudo se misturasse em uma memória apenas, fazendo com que a frente do motorista o preto do asfalto fosse um precipício para suas lembranças. “O sinal abriu”, disse a companhia ao seu lado. 

Ele, como se votasse de um transe, olhou para a pessoa ao seu lado com lentidão, os olhos ainda baixos focalizavam o painel do carro, cheio de cores, verde, amarelo, vermelho. “Põe a luz alta, o farol baixo não está ajudando na neblina”, completou o acompanhante. Mais uma vez, o condutor parou o movimento com os pés, olhou fixamente os olhos do outro. O carro começava a andar lentamente, o sinal fechara novamente, dois carros começavam a cruzar a avenida cada um vindo de um lado oposto, freadas bruscas, corpos para frente e para trás.

Os três carros parados no semáforo. Dois faróis com faróis e um ao centro. Mãos ao volante inertes. A neblina enganou a todos. “Está tudo bem?”, perguntou o motorista. Com uma afirmação com a cabeça, o passageiro passou a mão pelas pernas, mostrando ansiedade. Os outros dois carros permaneceram um frente ao outro, dando sinais de luz para que o outro prosseguisse. “Desculpa”, era só o que ele conseguia falar ao engatar a primeira marcha.

O passageiro não era ninguém da outra noite. Na realidade, para o motorista, não era mais ninguém fazia algum tempo. Ao chegar ao destino do acompanhante, os dois se entreolharam, esboçaram algo indefinido pelas suas bocas. “Me diga o que você quer ouvir”, começou o acompanhante. Os postes amarelos não iluminavam tão bem a rua por causa da neblina, o carro permanecera ligado com os faróis baixos. “Cansei de sinceridade, cansei de ter segredos, cansei de enxergar”, sussurrou o motorista. Ambos permaneceram em silêncio, e após se despediram com um beijo carinhoso que selava os lábios. Fechando a porta, o passageiro apenas disse, apoiando-se na janela do carro: “Não pisque, a neblina está muito forte. Faróis altos, certo?”.

Enquanto se distanciava, quarteirão por quarteirão, o motorista via pelo retrovisor a pessoa que estava parada ainda em frente a casa, tentando reconhecer na neblina os faróis vermelhos do carro ficando mais distantes. O motorista precisaria ligar os faróis altos, mas tinha receio de enxergar mais profundamente na noite. Os faróis baixos durante um dia de neblina funcionavam perfeitamente, o que não se pode ver a olhos nus apenas pode ser sentido de noite.

Os dias começavam com uma neblina espessa no meio da multidão, dos carros. A necessidade de enxergar tudo não valia o processo de se ligar os faróis. A bateria estava acabando, o peso no porta-malas era grande. Com os olhos baixos, o motorista daquela noite começava a caminhar devagar pela manhã pouco iluminada, como se algo em seus ombros doesse, como se as buzinas, os barulhos dos motores fossem entrando na sua cabeça e se tornavam indiferentes.

“Me diga o que você quer ouvir”, relembrou o motorista da fala do passageiro daquele dia. “Algo que não machuque os meus ouvidos. Algo que a neblina esconda e que ninguém mais possa nem ver, nem ouvir”. Quanto maior é o esforço para se ver na neblina, menor é a velocidade percorrida, menos desloca-se. Quanto maior a neblina, maiores os mistérios, os murmúrios, as dúvidas do que pode estar bem à frente. Os dias pareciam mais escuros naqueles dias."

(Texto produzido dia 04/04/10)

domingo, 8 de novembro de 2009

Em jogo

"É o preço que se deve pagar quando há tanto em jogo.
E no jogo, não há limites, não há regras, não há segredos.
As regras, os próprios participantes devem fazer.
Os segredos, cada um deve guardar para si para proteger quem permanece do outro lado da porta.
E os limites. Ah, os limites! Quanto mais se aproximar deles, mais alto você deve percorrer. Em um mundo onde os limites são invisíveis, o jogo permanece sem uma linha de chegada definida e muito menos onde se espera chegar. Se é que se deve esperar. Ou se chega em algum lugar.

O preço para isso é a consequência do viver. Viver é andar no limite e fazer com que ele sempre esteja ali, porém ultrapassá-lo.
Viver é esquecer das regras mas deixar claro o que se deve fazer.
Viver é manter em silêncio o que você gostaria de gritar para todos ouvirem, e baixinho, no pé do ouvido sussurrar: é segredo.

Viver é um jogo.
A vida sem regras, sem segredos e sem limites não é vida.
Vida é saber de tudo sem saber de nada. Apostar errado sabendo que pode ser o certo. Correr riscos, cometer deslizes, ter dúvidas.

Afinal, no que você vai apostar hoje?"

(Texto produzido em 8 de novembro de 2009)

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Calor

""O que voce pretende fazer agora que voce nao teme mais a verdade?" Perguntou ela, olhando para os olhos dele cheios de lagrimas. Estavam os dois parados, respirando fundo, procurando algo em que se agarrar. Algo que os fizesse se mover em direçao opostas, mas que com a força do tempo, apenas voltavam mais e mais outras vezes a encontrar os olhos, que mesmo focados em algo, continuavam perdidos.

"Nao sei. Apenas eu tenho certeza que eu nao quero mais isso para mim." Disse ele, com uma das lagrimas dela escorrendo pelo pequeno rosto branco entre os cabelos loiros lisos. Seria dificil para ele sair daquele lugar onde estava, depois de lutar tanto pelo que queria. Agora que tinha em suas maos, perdia. Nunca seria o suficiente para ele. E para ela, nunca seria da mesma forma. Ele apenas queria se sentir mais livre. E ela mais segura. Confiança naquele momento nao serviria para nada. Nao adiantaria ele segurar as maos leves dela com as pequenas unhas pintadas com um esmalte vermelho, perfeitos em seus detalhes minimos. Nao adiantaria mais qualquer tipo de carinho que ele fazia no rosto dela com o polegar.

"Por que fizemos isso com a gente?" Sussurrou ela, em meio as lagrimas. Lagrimas que faziam com que ele fechasse os olhos para segura-las. Ao fechar os olhos, ele se lembrava daquela noite. As duas garotas morenas sobre o seu colo. As maos delas passando pelo seu corpo moreno, que aos poucos ficava arrepiado. Ele jogava a cabeça para tras, seus olhos viravam a orbita. As duas morenas continuavam a passar as suas maos pelo corpo dele. Uma delas enquanto passava lentamente a mao na nuca dele e depois pelo pescoço, beijava seu rosto. A outra, mais baixa e um pouco menos bonita que a primeira, fazia caricias circulares no peito do rapaz. Ia perto de seus pequenos mamilos até seu abdomem, em um movimento de ir e voltar, segurando a surpresa, o momento crucial.

"Voce nao estava aqui." Respondeu ele ainda de olhos fechados e com a cabeça baixa. Ainda conseguia imaginar o que as garotas lhe fizeram. Pouco a pouco, ambas se aconchegavam em seus braços, a mais alta que usava um pequeno colar dourado que combinava com seus brincos de argola e grandes, continuava a beija-lo na nuca, os arrepios tomavam conta dele. Ele a segurava pela cintura, apertando as coxas grossas dela, levantando um pouco da sua saia. A respiraçao dela tomava um ar pesado, rapido. A mais baixa saiu do colo dele, agora em pé tirava sua blusa, ficando apenas de sutia. Um sutia preto rendado. Olhando para o corpo do rapaz, se ajoelha e começa a desabotoar as calças dele. Ele, em um impulso, apenas tira os sapatos e os lança longe.

"Eu achei que seria bom para nòs esse tempo." Ela resmungou ainda com as lagrimas nos olhos. Ele estava ainda de cabeça baixa com a camisa que ela lhe havia dado em seu aniversario. No pescoço dele, ainda permaneciam as marcas daquela noite no parque. A menor das garotas começa a passar a mao pela perna musculosa e com alguns pelos dele. Ia perto do joelho e voltava perto da cintura. Ela apenas conseguia se focar no que estava por baixo da cueca que o rapaz usava. Uma cueca azul marinho. A outra começava no calor do momento a levantar sua saia, deixando com que as maos grandes dele tivessem mais area para segurar. Ela começava a morder de leve a orelha dele, ele procurava o rosto dela, nao encontrava, mas mordia o pescoço da garota.

"Sim, entao eramos livres." Aumentando o tom de voz, disse ele voltando a olha-la nos olhos. Nao tinha que ser dito nada, ela ja sabia do que tinha ocorrido aquela noite. Ele mesmo contou para que nao acontecesse enganos. Por mais que se evitem, enganos sempre acontecem. Ele, mais do que ninguem, continuava a se enganar. Sentada no banco, a mais alta das duas começava a beija-lo. As duas linguas se encontravam. Ambas estavam quentes, salivavam por aquilo. Ele ainda permanecia de olhos fechados, sua respiraçao procurava o instinto dos animais. Com força, ele puxou a garota que o beijava contra seu colo, colocando suas maos na cintura nua dela, alisando a pele macia e jà arrepiada da garota. Enquanto a outra, o alisava nas pernas, segurando em seguida o que preenchia o azul marinho que ele vestia. Com força, com desejo, fazendo com que ele respirasse fundo e rapidamente.

"Voce foi o unico para mim." Voltou ela a chorar. Com um movimento delicado, as maos dele enxugavam as lagrimas que escorriam pelo seu rosto, fazendo com que ela virasse sua cara e fizesse da sua mao um encosto. As duas garotas permaneciam ali, uma sobreposta a outra. Uma ocupada em beija-lo e apertar os musculos do braço dele. A outra seguava em sua mao, deslisava aos poucos as pontas do dedos no calor dele. Ele abria os olhos. Em um impulso, colocava novamente suas calças, se despedia rapidamente das garotas, ajudava a mais baixa a procurar sua blusa. Com pedido de desculpas, disse que nao poderia fazer aquilo.

"Mas nao deveria. Eu nao sou quem voce pensa." Disse ele tirando a mao do rosto dela, fazendo com que ela abrisse os olhos lentamente. Ela sentia vergonha de ter que falar com ele novamente, em passar por cima da vontade de seus amigos, da sua familia. A maior das duas morenas o pegou pela mao, o abraçou com força. Ele nao retribuiu o abraço, ficou imovel com os olhos abertos. Ela deslisou suas maos pelas costas dele, puxou a camiseta dele para cima e o beijou desejosamente o seu pescoço. Ele segurou as maos dela, esquivou-se e começou a andar, sem dizer uma sò palavra.

"Eu sei quem voce é. Tenho certeza quem é o homem que eu amei." Lembrou ela, irrugando sua testa delicadamente, contraindo os labios. Ainda ela lembrou-se de quando ambos fugiram para uma outra cidade quando o pai dela morreu. De quando entregou para ele o presente de um ano de namoro, uma foto que tiraram nas ferias, com a praia e o com o grande sol vermelho com tons de laranja se pondo ao fundo. De quando ele a surpreendeu no dia do aniversario dela vestido de um personagem de desenho animado. De quando, pela primeira vez, a vontade dos dois se uniu em uma noite com pequenas velas acesas, em uma cama grande e com um perfume dos instintos.

"Nao somos mais o que eramos." Engolindo a seco, disse ele. As lagrimas de ambos começava a escorrer. Um pequeno sorriso de canto de boca esboçava no rosto de ambos o que perderam. Entre as maos, as bocas de deixam levar. Entre as maos, a febre acaba. Entre as maos dadas, nenhuma palavra seria dita. Apenas um abraço apertado, com os olhos abertos, para as lagrimas escorrerem. Ficariam ali, abraçados até quando se sentissem livres daquele calor. O mesmo calor que fez com que ele procurasse onde se aquecer. O mesmo calor que fez com que ela se aproximasse do seu colega de faculdade. Em um abraço, ambos se juntavam para se separem. Entre as maos, perdiam o que tanto desejavam mas que agora nao era possivel mais segurar. Nas lagrimas, caiam por terra o que em tanto tempo atras lutavam para conseguirem voar. Amarrados um ao outro, nao seriam livres. Naquele abraço, se desvinculava o que mais atormentava: o desejo de ser livre. Eram livres, mas estavam unidos ali. A partir de entao, cada um procuraria seu ceu, seu sol, seu calor."


(Texto produzido dia 26/06/2009)

domingo, 14 de junho de 2009

Mais do mesmo

"Talvez seria a primeira vez que ele a via. Pouco a pouco, com o comboio a chegar, o coraçao dele batia cada vez mais acelerado. Com o amigo do lado, comentava sobre qualquer assunto banal para esconder as maos suadas e o nervosismo que afloravam a sua pele.

A mesma pele que depois de algumas horas de conversa com ela se sentiria mais a vontade ao ser tocada. Os risos começavam a ser incontrolaveis. A sensaçao de ja a conhecer de algum lugar o fazia relaxar, pouco a pouco. As maos suadas se apertavam, lentamente, uma contra a outra, para procurar o que dizer, para segurar as pequenas besteiras que dizia. Na realidade, ele começava a entender que quanto mais ela se divertia com ele, mais ele ficava a espera de algum toque, de algum contato fisico para que pudesse colocar a cabeça para baixo e depois levantar o olhar lentamente e ve-la se recompor do riso largo e bonito.

O mesmo riso que ao longo do tempo o faria estremecer, deixar para tras tudo que ja havia passado. O passado aos pobres e errantes pertencia. Naquele momento, eram ricos e estavam fixos ali. Um de frente para o outro sem saber o que fariam, que coisa comeriam. Os sorrisos nos olhos demonstravam o que ali acontecia. Nao era preciso mais nenhum gesto, nenhuma palavra, nenhuma forma de expressao velha ou inusitada. Era preciso apenas aquele olhar, aquela forma de se expressar, aquele olho no olho que apenas o quarto, com a lampada de iluminaçao amarela, moveis, cadeiras e estantes de cores afins, poderia entender. Nada deveria ser entendido a partir daquele instante. Os arrepios, o calor, o frio na barriga, o coraçao disparado seriam reflexos de apenas olhares que procuravam um porto seguro e de poucos toques na pele branca, macia, com um cheiro levemente adocicado como o sabor das pequenas frutas do bosque encontradas na primavera nos tropicos.

O mesmo sabor que quando ela pediu para que ele fizesse companhia na noite, ele recusou. As frutas do bosque possuem um aroma doce, um gosto leve e um leve toque acido. Como se as frutas soubessem que por serem tao desejadas, nao poderiam ser ingeridas por serem acidas. Nao amargas. Com a mesma rapidez que o acido da polpa entra em contato com a lingua viva, ele negava o convite. A cada "nao" pronunciado, seu coraçao denunciava uma taquicardia, leve e fulminante. Ela se despediu, disse que iria dormir. Ele apenas começou a arrumar suas coisas, pensando novamente em que parte do "sim" seria mais dificil de dizer.

O mesmo "sim" que as pessoas utilizam com tanta falta de vontade e assumindo culpas que nao sao delas. Pelo menos, nao mais. Ela se deitou e o chamou para se aproximar com seu livro de desorientaçao. Ela se deitou e ele apenas se sentou perto dela, na cabeceira da cama. Querendo ler o que ele escrevia, ela colocou seu rosto sobre as pernas dele. Para ele foi inevitavel a abraçar e fazer de seu braço um travesseiro um tanto quanto incomodo. Mas ela parecia bem naquele braço, os risos ainda continuavam, escondendo a forte vontade que ele sentia de abraça-la e te-la definitivamente em seus dois braços. Um seria pouco para o que ele sentia. As palavras soltas, o coraçao que saltava, os arrepios que lhe gelavam e aqueciam.

Os mesmo arrepios que ele sentiu quando se deitou ao seu lado na cama depois de muito renegar seus desejos. Os braços dela pareciam perfeitos naquele instante. Era o que ele queria sentir. Mas eram poucos momentos em que ambos sentiam o calor dos corpos. Ela se virou na cama, ele a encarou. Os olhos falavam palavras que nao existiam. Eles se aproximavam pouco a pouco, a respiraçao se tornava leve e pausada. Ela salivava, ele lambia seus proprios labios pequenos. Um sorriso envergonhado interrompeu a aproximaçao.

O mesmo sorriso que as pessoas continuam a esconder no dia a dia. Escondem por se sentirem mais vulneraveis a erros. Erros todos cometem, mas nunca se deve temer viver, sonhar por causa de um sorriso que ja nao se parece tao doce como era. Os milagres acontecem em pequenos gestos, em pequenas esperanças, em pequenas surpresas que nòs deixamos entrar na nossa vida. Os milagres sao como sorrisos singelos. Apenas acontecem se estamos abertos para que aconteçam. Ele segurou a mao dela, a olhou novamente nos olhos, as testas se encostaram, as respiraçoes se tornaram uma so. Os olhos serviriam apenas para que a escuridao trouxesse claridade. Que aos poucos, o instinto e vontade procurassem o encontro dos labios.

Os mesmos labios que se perguntavam para o espelho se ele estaria bonito hoje. Cada um sabe o que vale. Se alguem ainda nao encontrou a pessoa certa, de alguma forma para superar o peso, os labios serviam para questionar, conversar. O beijo seria apenas uma forma de selar um acordo entre ambas as partes. Estariam dizendo que para mim, voce me agrada. O comboio ja estava a partir. O coraçao dele estava mais leve, mais calmo. Apenas batia mais forte por saber que toda aquela espera, ainda deveria esperar. A pele, o riso, o sabor, o "sim", os arrepios, o sorriso, os labios. Todos poderiam ser os mesmos, mas naquela hora ele sò desejava mais um. A saudade apenas que ficava. E essa era a mesma de dias."

(Texto produzido dia 13/06/2009)

sábado, 21 de março de 2009

Corroi-se

"Fazia algum tempo que aqueles pequenos olhos nao tocavam o céu daquela maneira. Talvez eram de mentira. As nuvens cinzentas com formas variadas, o azul claro de profundeza relevante, os montes que pareciam ora perto, ora longe. Tudo aquilo tocado por um par de corneas. Profundas lentes. Nos montes, as pequenas casas expeliam uma mistura de fumaça e vapor pelas chaminés construidas por tijolos de cor branca, que por causa do tempo, ja haviam sido transformados em pedaços de pedras com alguns pontos verdes, cinzas, que mostravam a corrosao que sofriam.

Na realidade, tudo se corroi com o tempo. Pensava ele. Tudo. Animais se corroem. Pedras se corroem. Frutas se corroem. Pessoas se corroem. Ate pensamentos se corroem. Porem os sentimentos sao diferentes. Eles corroem primeiro o que esta em volta para, depois de dissolver tudo que ha por dentro, se auto corroer. Talvez os sentimentos se assemelhem a agua. O que corroi as pedras na praia, sao as ondas que insistem constantemente em bater. Quando uma fruta é mergulhada em um copo de agua, ela se dissolve, sem pressa, naquela lenta maresia de poucos minilitros. Corrosiva, a agua tambem se consome.

Apoiado com os cotovelos na grade da pequena sacada de azulejos brancos com riscos em forma de raios beges, ele permanecia com os olhos fixos na pequena imensidao que obtinha. Detalhe por detalhe, ele abria sua mente à procura de algo que se assemelhe, e que ja tinha visto. E paisagem parecida com aquela que via de vastos campos com pequenas porçoes de verde, casas construidas no meio do ambiente bucolico, pessoas que passavam devagar na pequena via proxima, vestidas com seus casacos mais resistentes ao frio que fazia, ele nunca tinha visto.

"O ceu esta colorido." Azul, vermelho, um leve tom de roxo e um ponto amarelo central. Analisava ele, apontando. O calor corroia a agua. Seja o calor natural que o sol pode dar, dia apos dia, ou seja o calor artificial de maquinas de aquecimento. De alguma forma, o calor fazia com que a agua fosse embora. Olhando para baixo lentamente, ele sentia vergonha de pensar essas coisas em uma altura dessa. Mexia os pés lentamente, primeiro o calcanhar ia para a direita, logo em seguida para a esquerda, como se estivesse enterrando debaixo da sola algo que quer esconder. As maos entrelaçadas seguravam com força o calor que sentia, contra o pequeno vento frio que fazia nos fins de tarde.

Por mais longe que estevam, as pessoas que passavam na rua pareciam proximas, quase como se ele pudesse estender as maos, toca-las por um instante, sentir o calor que saia de seu corpo com um abraço forte, caricias leves, um beijo devagar e molhado com os olhos fechados. Leves toques das maos nas costas largas, com um movimento de ir e voltar intenso, que aos poucos subiam até a cabeça e a segurava com força, puxando um pouco dos cabelos morenos e curtos. As maos faziam com que o movimento das linguas se tornasse mais proximo e intenso, os olhos se cerracem mais fortemente e os labios se abrissem, fazendo com que o contato, antes leve, fosse incandecente, como em uma fonte de calor.

Aquelas imagens o corroia por dentro. Ao fechar os olhos, pouco a pouco, como em pequenos traços em um album que é aberto e as paginas passadas rapidamente pelas pontas dos dedos, suas vontades ficavam maiores. A solidao e o medo de se fazer compreender pelos gestos e cuidados o tornavam fraco e pequeno diante da serena imensidao que a cornea tocava. A fumaça das casas se fazia mais presente de acordo com a queda de temperatura. Ali estaria a agua. O vapor era aquela pequena porçao de agua que o calor consumiu.

O sentimento por sua vez permanecia no ar. A agua nao pode ser corroida. Quando desaparece, é porque esta presente de alguma forma em algum lugar. O vapor, o gelo, os pequenos flocos de neve que começariam a cair do ceu. O que ele sentia nao poderia se auto corroer. Um dia vira vapor, mas na outra noite fria quando nao se podera mais ver a lua crescente no ceu, a chuva cairia e traria para ele novamente todos seus medos, receios e dor que um dia foram tragados pelo vazio do coraçao. O pequeno ponto amarelo central que iluminava o ceu tinha desaparecido. Sobravam rastros de sua luminosa existencia nas cores sombrias que, junto com as nuvens cinzas e esparças, desenhavam figuras sem nexo. Do outro lado, a pequena lua crescente começava ja a refletir a luminosidade que ela mesma nao possui. Ele permanecia ali, admirando aos poucos o que deveria ser consumido por ele proprio, mas nao conseguia.

Talvez isso nao pode ser consumido, pensavam seus olhos fixos. Como a agua e o sol, um dia retornam. Diferentes, mas retornam para dar calor ou esfriar mais aquela sensaçao de solidao que um dia o atormentou. Capaz de se fazer entender, ele virou para o lado e disse: “Acho que esta frio para ficar aqui fora, vamos entrar?” A outra pessoa passou em sua frente o olhou e balbuciou: “Faz frio aqui fora.” E antes de adentrar primeiro ao quarto, apontando para as nuvens que apareciam no horizonte, completou: “ Acho que a neve esta chegando!”. Apos que a outra entrou, ele admirou pela ultima vez o ceu, olhando para o lado inverso de onde seus olhos estavam fixos e onde o sol estava: a pequena lua crescente havia desaparecido. A solidao tinha entrado. E seus sentimentos, nem a agua corroia."

(Texto produzido dia 21/03/2009)