quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Ventania

"O vento naquela semana arrastava todas as folhas das árvores que caíam. Mal elas saíam dos galhos rígidos e fortes, a ventania dava-lhes a impressão de que voavam por conta própria, como pássaros que se deixavam levar pela força da natureza. A força natural que as levava longe de onde eram para cair e, assim, unidas fazerem um lindo tapete marrom, junto com as pequenas flores amarelas que desabrochavam da copa de uma árvore frondosa qualquer.

Ao mesmo tempo em que as folhas voavam altas, ela passava devagar, devaneando pensamentos, distribuindo reflexões sobre o que ela sentia. Os cabelos loiros lisos pareciam ter vida própria. Contra o vento, eles levantavam mecha por mecha, uma para cada lado, e a franja insistia em cair sobre o rosto abaixado que desconhecia os olhares em volta. Os olhos verdes vivos permaneciam fixos no chão, apenas alterando-se a visão para as direções em que os carros entravam na rua. O movimento da rua era imperceptível para ela, já que sua cabeça apenas pensava nele. Nas coisas que ele todos os dias fazia para ela.

Não sabia direito o que pensar. Ela gostava de outro, porém se sentia sozinha. Não queria entregar-se àquela pessoa que havia conhecido há alguns dias atrás. Ela relembrava o primeiro dia em que se encontraram no escritório em que ela trabalha. Ele era novo com seus olhos perdidos que procuravam um ponto de apoio. E ela não tinha coragem de se aproximar, pois sabia que ele estava se envolvendo com sua colega de seção. Cada dia ficava mais difícil se aproximar. Ele parecia inacessível, fechado, perigoso. O primeiro sorriso trocado no happy hour da empresa após algumas poucas palavras. Ela ria sozinha caminhando pela rua. Um riso pequeno, que mal mostrava os dentes brancos e grandes cuidados com o melhor dentista da metrópole.

Após aquela pequena sinalização de uma possível aproximação, ela não conseguia tirar aqueles olhos escuros profundos da cabeça. Olhos que ela demorou a encarar, e quando o fez, deixou de lado toda sua insegurança e sua timidez. Dia após dia, ela o esperava passar pelo corredor da sua seção, lhe dar um sorriso gentil. O que, com o passar do tempo, se transformou em um apertão carinhoso no braço e um sorriso mais aberto.

Os carros buzinavam freneticamente porque um cachorro começava a atravessar a rua. Todos passavam e tentavam fazer com que o pequeno cão preto ficasse no mesmo lugar. Ela também. Tentava fugir todo o momento da lembrança daquele rosto magro, moreno de sol, com pequenas pintas pretas por toda superfície da pele. Mas cada vez se tornava mais difícil. Ele aparecia mais e mais como uma imagem, sem nexo, sem motivo.

Passo por passo, devagar ao seu tempo, ela imaginava o que poderia acontecer. Os dois sentados no sofá novo comprado com prestações em uma casa de móveis nova na esquina do pequeno apartamento em que ela mora. Carinhos, carícias, mínimos gestos, sorrisos pequenos preenchidos com a imensidão do momento. Ambos assistindo TV abraçados. Uma das mãos dele acariciando o pequeno braço dela, em um movimento de vai-e-vem incessante. O outro ao mesmo tempo em que a segurava pelas costas, dava-lhe carinho simultaneamente. Ela apenas deitava-se sentindo o calor do corpo e, entre uma frase e outra, as risadas. Pouco que poderia ser dito para a grandiosidade do estar junto.

Pouco a pouco, as imagens na cabeça dela apareciam como se fossem pequenos flash-blacks que não aconteceram. Como o primeiro beijo que ainda não pode ser dado. Após algumas trocas de olhares, conversas durante a pausa para o café e o cigarro dele e o suco natural com bolachas água e sal dela, estavam praticamente íntimos. Já sabiam o segundo nome de cada, de onde vieram, onde se formaram e até o nome do hamster de estimação que ele tinha na infância. Ele é de uma cidade pequena em um estado vizinho. Ela nasceu naquela cidade, sempre viveu e se formou na faculdade pública que tem ali, onde conheceu o grande amor da sua vida. Amor que se casou anos após a sua formatura por ele ter engravidado uma pobre moça sete anos mais nova.

Ela voltava a pé para casa todos os dias. Fazendo chuva, fazendo sol. Às vezes conseguia alguma carona, mas preferia andar. Suas pernas precisavam se movimentar depois de horas de trabalho exaustivo no escritório da empresa de cosméticos. E nas últimas semanas, única coisa que ela pensava era se encontraria com ele no caminho, se ele a convidaria para visitá-lo no fim de semana. Se finalmente eles trocariam o sabor das bocas sedentas. As bocas vermelhas que sempre sorriam quando um via o outro. Eles sabiam como tirar uma gargalhada do fundo do peito quando um dos dois estava precisando. Ambos sabiam sorrir, porém eram vazios.

O primeiro beijo que seria escondido no banheiro da empresa. Quando ela estivesse saindo, ele a pressionaria para dentro, trancaria a porta, diria algumas palavras doces e cheias de sedução e finalmente a troca. As pequenas flores amarelas começavam a cair sobre a cabeça dela, porém o vento se encarregava de limpar seu cabelo. O pensamento dela era apenas dele. Ela só estava pensando de como seria bom se apaixonar novamente e esquecer seus precipícios e seus vales profundos e escuros.

Ela pensava se a comida preferida dele seria igual a sua, como comentaram em uma de suas curtas conversas. Se ela saberia preparar como ele gosta. Macarrão ao molho branco e brócolis. Os jantares que ela faria no apartamento que ganhou dos avós um pouco antes de morreram e que se encheriam de alegria ao ver a mudança de estado do grande espaço da solidão que ela sentia toda vez que chegava. Olhava para a mesa cheia de contas, para a cozinha com algumas vasilhas de comida pronta sujas em cima da pia. A sala cheia de móveis, mas vazia de presença e o quarto com a cama em que ela mal descansava.

Enquanto se aproximava das esquinas, ela imaginava como seria seus momentos íntimos. De como seria sua primeira noite com ele. O beijo e as carícias que cresciam, a música baixa ao fundo, o toque da pele nua e fria dela com o calor dele. Se deitariam e tudo seria feito com calma e respeito. Porém, quando ela parava nas esquinas, se lembrava de que ele não é completamente solteiro, afinal está saindo com aquela colega da seção, que ela ajudou ano passado quando a outra chegou à empresa e mal sabia como usar uma máquina de xérox.

Seria fácil para ela dizer logo o que sente, se ele já não sabe. Difícil seria ela agüentar a pressão de uma resposta negativa ou a possível competição que criaria. As palavras são inocentes tão quanto os sentimentos. Nunca se sabe por quem se apaixonar. Ela não está apaixonada, mas gostaria de saber por que passava todas as noites esperando ele aparecer, mesmo ela se dando conta de que ele não sabe onde mora. Olhava para o teto, abraçava firme seu travesseiro e aguardava. Apenas isso que fazia. Esperava.

Enquanto esperava, ela continuava andando sem rumo, mas com um porto seguro. Sua fortaleza, sua moradia intacta. Apenas quem poderia entrar era aquele que tinha os olhos profundos e que a fazia delirar silenciosamente. Não queria testar mais seus sentimentos nem desgastar-se mais. Queria apenas sentir como é ser sentida. Sentir é mais que um desejo, é um colapso que acontece na máquina cerebral por causa do coração. Prometera não tentar mais. Mas tentava se afastar de cada pensamento enquanto caminhava.

Ele deveria saber, amanhã após o primeiro turno, quando chegar, ela o chamaria para conversar. Olharia fixamente naqueles olhos, pediria para ele um pouco de atenção e diria que em tudo que ela faz, pensa nele. Todas as ligações no seu celular, pensava nele. Cada pequeno detalhe do seu dia, pensava nele. Ele a acharia tola já que ambos não têm nada, mas ela não agüenta mais guardar isso para si. Mas ao mesmo tempo, pensava que deveria preservar-se e calar-se diante dos fatos.

Os carros passavam velozmente enquanto ela quebrava todas as regras, atravessava a rua em um ritmo acelerado sem olhar para os lados sem esperar a resposta como em quase todos os momentos que passava com ele. Os olhos marejados não sabiam mais para onde olhar. Apenas seguiam o ritmo da natureza, que é preservar-se de pequenos danos, ciscos e poeira que poderiam embaçar a visão. Ela queria pouco. Pensava muito, refletia sem alguma pausa, imaginava abraços, beijos e o calor dos corpos juntos, se tocando interruptamente.

Ela queria apenas que todo aquele furacão dentro de sua cabeça acabasse. Ela desejava que ambos estivessem juntos e, no meio da noite quando ele se levantasse para ir embora, ela pedisse para que ficasse mais um pouco. Então, ele diria, com os olhos cansados, que não pode, e beijando levemente seus lábios e cobrindo-a, prometeria voltar amanhã. Ele iria embora e levaria consigo todos os pensamentos noturnos dela e, instantaneamente, ela dormiria. Assim a ventania lá fora não existiria mais."

(Texto produzido dia 06/10/2008)

4 comentários:

Karina disse...

Amei!!
Meio "Rosamunde Pilcher"
Baseado no vento assisense dessa semana??

A ventania, por mais q seja forte, sempre nasce lenta :)
O amor tbm!

aline gianazzi disse...

engraçado como todos esses pensamentos entopem as nossas cabeças sempre que (não) estamos quase apaixonados.

Ana Flávia disse...

nossa vc tá escrevendo muito bem!!!

beijinhuu

reinaldo.mas disse...

Assis venta mais que Marilia?
achava que isso daria filme.. nao cronica
uahauhauhauahua