domingo, 15 de maio de 2011

Passo póstumo

“Even that when we're already over,
I can't help myself from looking for you”
Adele


O óculos escuro já não era necessário naquele dia nublado, frio, desamparado. As grandes lentes pretas escondiam os olhos baixos, levemente irritados, do vento que cortava a face. Os passos vagos pela calçada, as mãos dentro do bolso da bermuda que cobria até os joelhos, o pensamento errante divagava lentamente ao toque da brisa, recolhendo-se a cada carinho que as curvas do rosto recebiam.

Em palavras não se conta uma história. Não apenas. A sua ordem pelas frases de nada vale se não fizerem sentido para um, ou dois. Dessa história queria contar apenas para que possam se abrir ao que já está gravado na pele, as cicatrizes indolores tatuadas inconscientemente.  Uma história que poderia ser um romance, um grande livro vendido nas prateleiras amareladas, e ao mesmo tempo uma crônica, conciso retrato de um estado de espírito.

Grandes amores não surgem de uma hora para outra, desestabilizam, impregnam o corpo e o envenena.  O tempo é fundamentalmente necessário. As fases passam, as pessoas podem ficar mais um pouco, mas em algum lugar ali dentro, a escuridão silenciou o inquieto sentimento. Sob os escombros, algo ainda pulsa, disfarçado de dor, orgulho, medo, repúdio, piedade. Permanece adormecido, porém vivo.

Ao despertar, as dores, as causas, as tempestades desaparecem. Quando verdadeiramente ele acorda, os olhos cerrados levemente, a boca sem contração, a mesma posição, os corpos que trocam calor. Qualquer coisa que possa demonstrar o meu amor. Amor escondido, receoso, machucado, que se aquecia mais uma vez. O tempo agiu entre nós, o espaço, as pessoas. Hoje o seu amor não é mais meu, sua atenção, seu toque.

Mas durante segundos, como pela primeira vez, o coração inquietou, as mãos tremeram. A resposta do corpo, da vontade da alma, tomou todos os cômodos da casa vazia. Os olhos que invadem o olhar do outro, admirando a sua leve profundidade, sua singela complexidade. As pontas dos dedos que escorregam pela pele, os reflexos dos pelos que se ouriçam, os lábios que se tocam, a respiração que fica gradualmente ofegante. O exterior tremula e o interior estremece.

Durante muito tempo, procurei por muitos lugares e, sem notar, a sua figura estava presente em cada sombra minha. Não sabia compreender o que restava comigo, se havia luz ou se haviam se apagado. Nós poderíamos ter conseguido tudo o que desejávamos. Aliás, os que ainda desejamos, os anos não apagaram, os mesmos desejos, a mesma vontade. Uma figura que não remete à nostalgia, mas constrói novos caminhos, novas trilhas. Talvez as mesmas que eu passei e não tinha notado sua presença nelas.

Não importa quanto esforço será feito. As coisas darão errado ou certo. Sei o que está guardado e quando clamarem por ele, responderei. Mas se o fizerem novamente, meu amor tomará a frente. E o seu é o que me impulsiona a seguir em frente. Se eu agir como se não me importasse, é porque de alguma maneira quero manter intacto o frescor da brisa que paira por entre as paredes trancadas. E eu faria qualquer coisa para que o mundo entendesse. Para que você sentisse, de verdade, o meu amor retribuído.

E o que já estava escrito, hoje é uma página em branco. Nenhuma história termina, nada pode apagar pequenas palavras, postas e dispostas de acordo com o futuro. Não se dá um título a uma obra não finalizada. Como em uma lembrança póstuma, o passado prescreve e o futuro escreve as gotas de chuva que escorrem através das lentes escuras, incerto, vagante. Qualquer passo para mostrar meu amor.”

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Insomnia

"As noites se pareciam dia. Os dias apareciam de noite. Madrugada por madrugada, eu perdia a noção de espaço, de tempo. Muitas das vezes eram pensamentos que pairavam longe, idéias vagas que começavam a tomar a cabeça como de assalto, de surpresa, e possuíam todo um ambiente, preenchiam com total naturalidade uma mente inocente, sem vínculos com o que estava por detrás daquelas janelas escuras que me impediam de olhar além. Muitas vezes essas idéias eram mínimas, eram sonhos, expectativas de uma meta inalcançável, de objetivos vãos, de um parâmetro tolo.

Não sei explicar. Minha grande cama com um lençol cinza novo, almofadas de penas de ganso com fronhas de cores aleatórias, como verde e vermelho, ou azul e amarelo, além do meu, e inseparável, edredom. Confortável, aconchegante. Minha cama seria um belo de um recanto do sono. Mas nas últimas semanas não tem sido. Outro dia foi por causa do temporal que estremeceu até a porta. Semana passada foi por causa do calor que nem sequer amenizava  com a presença do ventilador de teto. Dias atrás, novamente, a chuva e o barulho de passos no corredor dentro de casa que me deixaram alerta para tentar reconhecer de quem seria aquela marcha. Mas não é sempre que há uma desculpa sólida, como hoje em que ao deitar, as palavras surgiam à mente, especulavam sobre meu futuro, e mais uma vez me encontrava sentado com o computador ao colo observando o quadro azul pendurado na parede.

Fechava os olhos, tentava pensar 'azul', que dizem trazer tranqüilidade e, em diversos momentos, comigo funcionou essa técnica de materializar na escuridão das pálpebras cerradas a cor dos mares e céu. Porém não funcionara. Pensei em coisas então boas, conquistas, momentos de felicidade, e a única coisa que obtive foi resgatar mais memórias, mais histórias. Enquanto tudo isso acontecia internamente, meu corpo por fora relatava indiretamente esse movimento cerebral, seja virando de um lado para outro, seja arrumando pela milésima vez o travesseiro, ou apenas mexendo os pés em um movimento rápido, contínuo, como se estivesse impaciente.

Talvez seja isso, afinal. Seria falta de paciência ou apreensão? Com certeza nada em minha mente para me tirar o sono. Já se foram os dias em que poderia perder horas por problemas comigo, com outros, com o mundo. Nas últimas semanas, apenas tive momentos muito bons, reencontrei-me, finalmente tive a paz de espírito tão almejada. Antes dormia para me refugiar de medos, acordava assustado, com receio de que pesadelos se tornassem reais, por mais que grande parte apenas estava entrando de fora para dentro, e não o caminho inverso. A tempestade lá fora estava dentro de mim. Hoje, ela permanece apenas impondo respeito fora dessas paredes, sem fazer com que eu a tema.

Finalmente consegui enxergar que se aqui chove, em outra parte do mundo não. Um mundo de possibilidades se abrira em minha mente. Antes o que era um refúgio, um quarto branco, hoje se torna de natureza acesa, colorida. Se eu sinto falta de algo? Talvez da minha rotina e das suas próprias quebras. Sinto falta do meu espaço, do meu próprio lugar. Essa parte entra o grande paradoxo que acabei construindo, e diversas pessoas também devem ter passado ou passam pela mesma situação: aqui é meu lar, mas não minha casa.

Casa é onde criamos oportunidades de crescer, onde podemos ter algo que chamamos de nossos, seguirmos nossas vidas de acordo com o que estabelecemos ser certo para aquele momento. Lar é onde podemos voltar sempre que as oportunidades afundam, quando o próprio espaço começam a se tornar sufocante e as decepções da vida nos arrastam e esfregam areia em nossos rostos limpos. Quando menor, minha casa era meu lar. Hoje, tendo em vista minha situação, casa se tornou outro lugar, mas o lar nunca se muda, apenas pode transferir-se, caso as pessoas nela contidas, e também responsáveis pelo nome que recebe, também se vão para outro.

Sinto realmente falta da minha casa, do meu espaço, da minha rotina. Mas não que isso seja o motivo de eu não conseguir dormir. Em vez de querer estar aqui, vezes deitado de bruços, vezes sentado, gostaria de estar andando por outros lugares, reparando em rostos, dançando aquela música até amanhecer, cantando para quem quisesse ouvir. Sinto falta das minhas quebras de rotina, dos meus surtos, de querer caminhar, fazendo frio ou calor, de chegar atrasado sem motivos aparentes ou adiantado com segundas intenções, sem ter que explicar muito. Quis fazer e fiz. Mais um paradoxo: descobri que sinto falta de me sentir “aprisionado” em minha rotina, mas, ao mesmo tempo, de me sentir mais livre para poder quebrá-la da forma que eu quiser.

Mas nem isso seria motivo para que eu perdesse meu sono, pois sei que cedo ou tarde isso deve acabar. Então, se nada disso pode ser, onde está o problema? Estaria com medo de dormir? Muitas vezes, quando adormeço, imagens me tomam tanto a mente, entram em forma de sonhos, de histórias inconscientes que revivo dias sim, dias não. Lembro-me até de uma vez estar despertando de uma espécie de cena cheia de mistérios, um tanto quanto sombria, porém familiar, que não me dava medo. Eu estava naquela nebulosa aparição duplamente. Em meio a grandes eucaliptos que podia sentir o aroma, eu narrava a mim mesmo o que deveria fazer, e ainda me relembrava a todo instante de epifania que na manhã seguinte eu deveria escrever sobre o que estava sonhando. Era até metalingüístico.

Tenho uma relação mais pacífica atualmente com meus sonhos e pesadelos. Antes eles até me assombravam. Quando pequeno, me lembro diversas vezes que tinha até receio de atravessar o corredor e chegar ao quarto dos meus pais para “pedir ajuda”. Até ao abrir a porta, me sentia desprotegido, um frio me tomava a espinha e as pernas, os meus olhos pareciam que sairiam da órbita de tão abertos que ficavam. Corria para a beirada da cama onde minha mãe até hoje dorme, a acordava e avisava: “Tive um pesadelo”, sussurrando mais pelo fator medo do que pelo fato de estar de madrugada.

Naquela paciência materna, ela avisava meu pai que acordava de sobressalto com a visita noturna, se levantava, me acompanhava até a minha cama, me colocava novamente sob as cobertas ou lençóis e se sentava, esperando a confiança retornar. Quando muito apavorado, pedia para que ela se deitasse comigo até que eu retornasse ao sono. Mais calmo, porém acordado, sempre a via saindo do quarto. Abraçava um dos travesseiros, virava o rosto para a parede e apenas esperava o sono chegar. E ele vinha. Agora, seja lá o porquê ele não se aproxima.

Mas, como descrevia, tenho uma relação muito mais harmoniosa com meus pesadelos, sonhos e até insônia. Tento descrever, entender, decifrá-los. Aqueles que eu me lembro com detalhes, e normalmente são os piores. Enquanto insone, faço dos momentos de ócio os mais produtivos. Me atualizo sobre meus interesses, leio algum livro que esteja  ao alcance das mãos no criado-mudo, ouço algum álbum recém-lançado ou apenas procuro aquelas clássicas para cantar sem reproduzir nenhum som, aliás, motivo que evito sair desse quarto, indo para o banheiro e voltando, quando necessário. Um barulho que for pode acordar a todos e essa sensação não é das melhores, como em um revival de quando era pequeno, tenho medo de abrir a porta, fazer algum ruído e despertar o monstro escondido em algum canto da casa.

Reviro-me, troco a lista de músicas, bebo um pouco de água e nada. Meu pai se levanta, nota a luz do quarto acesa por debaixo da porta e a abre, sem cerimônias, como costume desta casa. Me observa com um olhar de reprova, como se avisasse: “Vou contar a sua mãe!”. Mas não tenho culpa. Além disso, nenhuma para se perder essas noites de sono. Não me sinto culpado por nada, tenho a mais plena consciência de todas minhas ações e palavras. Aliás, culpa é algo que exclui das minhas noites e dias. Só devemos nos sentir culpados por coisas que fizemos e que prejudicaram outras pessoas, diretamente. Aliás, mais fácil alguém me prejudicar que eu a alguém, devido ao meu histórico de bondade excessiva. Mas passado às cinzas resta; o fogo que está queimando e as folhas em cima da mesa prestes a serem jogadas nas chamas me interessam mais.

Ainda permaneço sem nenhum sinal aparente de sono. Nenhum bocejo ou aparente cansaço mental ou físico. O quadro permanece no mesmo lugar, nele uma árvore sombreada que resiste em meio a um rio, um lago. Por entre as frestas da janela em tom escuro, a claridade do sol começa a aparecer, ainda bem fraco, e com a luz artificial apagada o quarto assume ainda aquele tom matinal de lugar fechado, onde tudo permanece escuro, mas nítido. Não entendo ainda o porquê dessas noites de insônia, não é nenhum medicamento, nenhum efeito colateral. Mas se tentar compreendê-la, seria uma preocupação, algo que me tiraria mais o sono. Então, que essas minhas novas noites apenas me tragam coisas boas, sem precisar perder o sono para ganhá-lo novamente. No final, mais um paradoxo. Mas o que seria melhor para um tema como a insônia? Uma oposição entre dia e noite seria clichê demais para mim. Então, um paradoxo entre perder sono e ganhar tempo. Como na vida, algumas coisas se esvairão, mas em contraste outras serão adicionadas. Como em uma balança que deve sempre manter-se equilibrada. Em paz."

(Texto produzido dia 14/01/11)

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Desabafo de mais um fim de ano

Anos atrás eu estranharia esse sentimento, essa falta de ar que toma conta do peito vazio. Às vezes o que toma conta dentro do peito é mancha negra, que vai consumindo minuto após minuto, cada esboço de esperança. Se existe algo que eu mais confio é o que escrevo. As palavras ditas, mencionadas não podem ser apagadas com uma simples borracha. Estão ditas, é convicção, é o que naquele instante a mente sentia e o coração pensava. A união delas, as sentenças, entra como flecha, dissolve-se no peito e corrói. Ajudam apenas essa infestação negra no peito aumentar. A felicidade alheia é vista como um ataque, a ausência desse tipo de esperança, de alegria nessas épocas do ano machuca.

Por isso que sempre escrevo aos fins de ano. É a época em que todos os delírios de felicidade tomam conta de todos. Isso seria mágico, seria bonito. Mas apenas seria. Para mim não é. Não consigo ao fim de um longo ano conseguir enxergar as estrelas e as lindas renas que circulam pelo ar, em um espírito invisível. Inevitável que essa época chegue,que coisas novas venham. Aliás, seria mais do que necessário mudanças, modificações. É imprescindível. Porém, terminar um ciclo, um ano, respirar um ar novo, podre por dentro, com manchas cinza corroendo.

Comemorar festas que não são minhas. Sorrir para não ter os olhos perdidos em algum ponto baixo do horizonte. Não pediria nada demais para mim. Se Papai Noel existisse, ou algo superior a nós, que pudesse nos presentear com o que queremos, ou que nos ajude a cumprir nossas missões, nossos objetivos. Não quero ser muito depressivo, apenas quero que entendam que não posso achar mágica em uma data que apenas me deixa ainda mais descontente com o que eu fiz. Ano após ano. Um misto de arrependimento, de dor por se sentir tão vazio por procurar coisas que são extremamente distantes do que eu realmente posso obter. Talvez erre todos os anos por desejar sempre o máximo que eu puder, sem medir esforços e conseqüências. Por ser tão ingênuo ao enxergar, almejar o mais alto, sem ver a estrada que pode custar os pés. Eu deveria desejar menos.

Esse talvez seja meu erro, meu pior defeito. Talvez deva listar mais alguns, caso Papai Noel leia isso, e julgue definitivamente se ele vem ou não. Além de sempre desejar muito, eu desejo os dos outros. Infelizmente, a grama é mais bem cuidada, verde, reluzente ao lado do que por aqui. O Natal nunca me tocou. Nunca ele beijou minhas mãos, me encarou e seduziu com os olhos e disse que me queria. Profundamente, ele nunca me tocou de leve pelas costas, beijou a minha pele, me abraçou forte e pediu para que eu ficasse naquela noite. Os outros possuem isso, eu não tive. Invejo quando o Natal toca dessa maneira, invejo o ódio, invejo o amor alheio. Algumas pessoas amam tão pouco e isso parece ser o suficiente.

Defeitos múltiplos, minha habitual mudança de humor que hostiliza ainda hoje a tantos. Extremamente mimado, o que faz com que tudo que eu faço deve ser o melhor de mim e as pessoas devem ver dessa maneira. Se não o vêm, ou a partir do momento em que me torno apenas mais um em meio de poucos que foram escolhidos, tento fugir, esquecer. Um covarde, fraco, monstruoso, sofredor. Tantos adjetivos, substantivos que podem se fazer uma lista que tenho certeza que eu, de dez qualidades listadas, apenas uma me agrada, ou que pense que seja verdade.

Não sou perfeito, nem almejo ser. Mas queria pelo menos saber como é esse Natal, esse espírito que contagia a todos. Não é o Natal, o ano-novo. A cada final de ciclo, paramos nossa vida para colocar na balança as coisas que fizemos, o que alcançamos. Saúde, paz, alegria são tão relativos. Claro, esqueci mais um adjetivo: complicado. Uma mente complicada, complexa, emaranhada. Traumas, medos que daqui de dentro desse quarto escuro fazem sentido. Para outros, não mais. Antes eu passaria despercebido, agora as coisas estão expostas, minhas feridas estão ao ar, apodrecem e começam escorrer sangue velho e grosso.

Às vezes me pego no topo do mundo, olhando o horizonte, cheio de nuvens, trovões, raios em minha volta e aqui dentro de mim, com as janelas e persianas fechadas, tudo parece pior. O mundo no curvar do olhar perdido parece novo. O que permanece por esses montes não consegue deteriorar, como uma doença que te tira forças, mas não te consome. Como em um vício, dia pós dia, uso depois de uso, já fixa, invade e eu não posso renunciar. De cima, apenas o vento consegue ressoar nos ouvidos, os olhos depositados no meio das nuvens que começam a precipitar uma cortina de água, que lentamente chega ao chão, como um grande cobertor que cobre uma terra distante, mais verde, mais próspera.

Uma terra que apenas fica nos meus sonhos, no fundo dos olhos. Fins de ano me fazem pensar em como todos podem estar feliz, se apenas eu consigo ser tão miserável com minha própria vida, ou fazê-la assim. Se o sentimento de felicidade por acabar um ano se aproxima, eu me afasto dessa realização por ser tão longe de mim. Não posso comemorar os olhos cansados, as mãos que mal são tocadas, a boca franzida. Não posso reclamar da minha vida. Aliás, nunca se deve, mesmo quando escapa algo dos lábios. Fins de ano me mostram apenas o quão posso ser pequeno.

O que eu gostaria não importa mais saber, se nem Papai Noel ou o que presenteia a todos com dons e vontades puderam fazer. Mas se vale, meu presente ideal seria não ser mais um na estrada curva inevitável. Não ser uma pessoa que caminha, deixa suas marcas pelas casas ao longo da floresta mal-iluminada. Não gostaria mais sentir que tudo não é suficiente, que as ações ao longo do ano foram apenas parte da vida de alguém, enquanto, a minha própria, estou escrevendo sozinho, com uma caneta de pena cinza velha, que falha em cada traço. Como se eu em cada erro, deslizasse e não manchasse o papel.

Fins de ano representam esperança, mudanças, expectativas. Enquanto acreditava em Papai Noel, nada acabava. Quando tudo parece estar sem sentido, sem forma, a vida se repete, o marasmo acontece. Tudo novamente, como uma grande peça de teatro que se repete, ano após ano. Arrastam-se as dores, benzidos os enfermos e abençoados os que comemoram. Quanto menos se sentir, mais letal e menos doloroso. Mais sentimentos, mais mortal e mais doloroso. Natais, fins de ano são para pessoas que possuem algum traço de esperança, que confiam e esperam.

Já esperei, confiei no tempo, em mim, em o que poderia. Mas permaneço sendo o mesmo dentro das metamorfoses que eu só encarnei. Não digo de uma época, de um período. Digo por uma pequena estrada que percorri, os jardins que cuidei e que outros sentiram o doce perfume que exala a pele lisa. Menos eu. Se Papai Noel puder um dia ler o que eu escrevo, queria apenas que ele realizasse meu desejo de me dar um carro, ou talvez uma conta bancária mais recheada. Tudo bem, não adianta pedir essas coisas. E Papai Noel não existe.

Desejar uma transformação, talvez que alguém reacenda essa esperança seria também pedir muito. Daqui do topo do mundo, estou quase à mesma altura do céu, e o que eu vejo são luzes, estrelas. Todas elas brilham, e eu que parecia estar perto e poder tocá-las, apenas observo, sem luz, com os olhos apagados, desejando apenas que o peito tomado pela escuridão possa brilhar mais uma vez. Eu realmente não sinto que deveria comemorar. Eu não gosto de finais de ano. Não acredito neles nem em finais felizes. E finais felizes não existem, também.”

(Texto produzido dia 09/12/2010)

domingo, 13 de junho de 2010

23


"Cuidado com o que deseja

Nunca paramos para pensar realmente o que se passa durante um ano da nossa vida. Todas as idas e vindas, os sentimentos, as pessoas que passaram. Tudo em um ano não pode ser resumido em algumas sentenças, meras palavras. Pessoas até dizem que a única coisa que se pode notar é o envelhecimento. “Nossa, como ele ficou com ar de mais velho”, “Reparou nas rugas?”, “E o cabelo branco, ou a falta de?”... Na realidade, não se pode afirmar desta forma. Não por indelicadeza. Mas pelo fato de que apenas parecemos mais velhos a partir do momento em que perdemos a perspectiva de vida, de esperança. Quando a dor do viver ultrapassa a vontade de alcançar. Parecer mais velho que sua verdadeira idade nada tem a ver com parecer cansado. Tem a ver com esperar a vida passar, cruzar os braços, deixar que o tempo escorra através de um furo na pele.

Nestes 23 anos muita coisa já aconteceu para ser descrita. Aliás, vinte e três. Engraçado como as idades marcam a vida das pessoas mesmo sem ter um fato a ser ressaltado. Seria apenas “tradição”. Os dezoito anos, os quinze, os vinte, os trinta, os quarenta e cinco, os sessenta e até os vinte e quatro. Mas 23, não há alguma superstição, alguma decisão prévia a ser tomada, nenhuma mudança corporal para ser explorada. Idade sem poesia, sem significado.

Mas para mim, 23 anos podem significar mudanças. Tudo vai começar no pontapé inicial. No dia do meu aniversário. Acreditei desde pequeno que o dia em que eu completo anos é um dia mágico, um dia até mesmo de esperança. Para mim, aquele dia seria o espelho do que viria durante os trezentos e sessenta e cinco seguintes. Se fosse um dia calmo, um ano calmo. Um dia turbulento, um ano turbulento. Pensando bem, tem dado até que certo. Uma boba superstição, mas que pode até me render uma carga extra de vontade de seguir em frente.

Um aniversário de 23 anos bom seria aquele que eu não pense muito. Que haja mais ação. Um dia que eu sorria, chore. Mas nada ao extremo. Um dia até que morno. Estou pedindo um ano de calmaria, um ano de mais paz... Pelo menos sentimental. Já no profissional, queria um ano corrido, então devo correr, tem que ter ação. Está certo. Estou pedindo demais. Ou é calmo, ou é corrido. Queria a combinação perfeita entre o vermelho e o azul. Entre o salgado e o doce. Entre o antigo e o contemporâneo. Queria um dia que refletisse um novo ano, que tudo se misturasse, se absorvesse lentamente. Nada de mais um ano conturbado. As lições que tinham para ser aprendidas, dos vinte aos vinte e dois já foram suficientes.

Um dia em que reflexões sobre a vida tomem novas perspectivas. Aliás, nem que elas existam. Já passamos muito tempo vivendo perguntando o que é a vida. Sendo que a verdadeira questão é “como viver a vida”. O que encaramos em cada instante, cada segundo não importa. Importa como o fazemos. Perdemos tempo olhando para o horizonte pensando em um futuro que pode até parecer mais irreal do que distante. Perdemos. O futuro a ser pensado é aquele que está debaixo da ponta dos nossos pés. Aquele degrau que nota-se ao toque, bem rente.

Consome-se muito o futuro, o passado, o presente. Banaliza-se. Explora-se. Descontextualiza-se. Esquecemos que a vida de um ser humano, seus sentimentos, sensações, vivências ultrapassam apenas três tempos. Cada idade, cada instante pode ser um tempo diferente. Hoje sou um pretérito do subjuntivo. Daqui minutos, quero ser imperativo. Amanhã um presente do indicativo...

Obstáculos vão existir. A distância, a procura pela felicidade não está logo aqui. Ou está. Ninguém sabe. Apenas saberei se a felicidade está ou esteve aqui, quando sentir. Mas ninguém sente. Ou eu sinto. Ou ninguém sentirá. Pena, falta, compaixão. Devo sentir? Talvez daqueles que me queiram mal, dos que me queiram bem, dos que se perderam em vão, respectivamente. Ou não. Inimigos virão e devem vir, sim, afinal são eles que nos fortalecem e ensinam que um mal não justifica outro. Amigos virão e devem ir, pois aqueles que você mais gosta não podem ficar presos, já que sentimentos libertam e não aprisionam. Perdidos e perdedores virão e devem se sentar para que ouçam onde erraram, o por quê não fazer dessa maneira. Talvez eu seja todos eles ao mesmo tempo. Talvez não seja nenhum. Apenas sei que posso ser, se eu quiser.

Mais do que na hora de inclinar-se na própria vida. Na minha vida, em mim. Não quero mais enxergar por dentro, fazer um autoconhecimento. Disso, todos nunca saberão. Ninguém sabe ao certo o que é até encontrar-se em uma situação inesperada ou extrema. Não nos reconhecemos em diversas ações, palavras, por não sabermos exatamente o que somos. Não sei quem eu sou e prefiro dessa maneira. Ou não. Quem sabe, daqui alguns dias, mude de ideia. Mal de geminiano.

Apenas, nesse ano que os 23 chegam, o desejo é ser realizado. Tudo antes estava sendo escrito, e agora está na hora de sair desse plano virtual das perspectivas. Hora de mudar, de se reinventar. 23 não pode ser um ano cabalístico, mas pode ser um ano forte, de ações, expectativas alcançadas e de realizações. Clichê é, mas pelo menos vem me consumindo interiormente esses desejos. Sábio quem disse que “Você é o valor que você próprio se dá”, e igualmente aos seus sonhos. Basta agora cantar parabéns, apagar o isqueiro no lugar das velas, comer o pedaço do tradicional bolo junino de morango. E desejar.

... pois pode se tornar real."

(Texto produzido dia 13/06/2010)

domingo, 4 de abril de 2010

Neblina

"A noite parecia mais escura naqueles dias. Era a neblina que envolvia com seu mistério os postes de luzes amareladas, os prédios com suas poucas janelas acesas e os faróis dos outros carros que se locomoviam lentamente, desviando um dos outros, das ruas pequenas, dos sinais de trânsito que os impediam de seguir em frente e manter uma velocidade mediana.

O rádio permanecia ligado e, a cada música, o motorista tirava o pé do acelerador ou fazia com que o carro corresse mais. Dependia do ritmo, da forma com que ele fosse envolvido. O condutor não fazia de forma abrupta as oscilações de velocidade. Mantinha o pé encostado ao eixo de aceleração, a mão direita, quando necessário tocava levemente o câmbio, mas maioria do tempo, auxiliava a mão esquerda que permanecia ao volante, segurando também um cigarro que queimava lentamente.

Os olhos do condutor percorriam, por um segundo, todas aquelas ruas, uma por uma, ele as visitava, conseguia enxergar cada casa, cada cão de guarda, cada jardim bem cuidado ou não, cada reflexo da televisão ligada no vidro da porta. Quando se notou, tudo parecia em câmera lenta, apenas o que suas lentes recebiam seria o flash de luz dos automóveis, das poucas motocicletas, dos semáforos, e seus possíveis reflexos nas vitrines das lojas, nos tênis brancos luminosos dos transeuntes, nos retrovisores em movimento. O que captava: reflexos, sinais, todos lentamente processados. Talvez refletissem a paz de espírito que sentisse. Mas não era isso. Diante decisões, problemas, dúvidas, o motorista apenas dirigia na neblina.

Ele não estava sozinho. Tinha alguém ao seu lado. Em silêncio, mas estava lá. O mesmo silêncio que ele ouviu na outra noite. Ambos permaneciam quietos, o sinal fechou. O carro foi parando lentamente, enquanto a velocidade ia diminuindo, os olhos do motorista abaixavam-se para o asfalto negro, úmido da chuva que havia caído durante a tarde. A mesma música da outra noite começava a tocar. As mãos do condutor começavam a tremer, o sangue parecia gelar a cada batida, um arrepio subia pelas costas. Estava lembrando-se da outra noite.

O silêncio era tanto que se dava para ouvir a respiração deles. Não estavam mais conversando, discutindo. O que se ouvia eram as respirações ofegantes. Ele, o motorista que antes era o ouvinte, não precisaria se aproximar da porta, nem sequer fazer algum esforço. O que acontecia naquele quarto era passível de visualização. Naquela noite, a neblina não estava do lado de fora, estava dentro dele, do quarto, da casa. As mãos dele tocando com força as costas dela, os corpos despidos que se juntavam frente a frente, os seios dela roçavam no tórax nu. A respiração parecia aumentar, o ar ficava sem oxigênio como se uma fumaça branca tomasse o quarto lentamente. Ela estava sentada sobre ele, os seus membros já tocados, molhados de um quase gozo, de um delírio que guardavam para o final.

O movimento começava a ficar intenso, ela se virava sobre seus joelhos no colchão. O rapaz em estado de ereção encaixava-se nela por trás, segurando-a pelos cabelos, como se fosse trotar em um cavalo arredio. Ela agarrava o lençol bege da cama, estendendo seus braços sobre a cama vazia. Os olhos de ambos permaneciam fechados, abriam-se lentamente para um descanso da mente, para que os olhos pudessem gravar aos poucos o momento, a repetição. Ele, com seu membro ereto, ia para frente e para trás em um movimento que se firmava mais forte, a cada final de ciclo. Os gemidos baixos se faziam alto, os toques de pele que estalavam se tornavam presentes a cada segundo mais. As mãos dele agora seguravam os seios dela, as pontas dos dedos acariciavam ambas as auréolas, pressionadas pelos entre dedos, o que a fazia soltar um grito abafado de prazer.

Do outro lado da porta, os olhos fechados faziam da cena mais lenta na cabeça do quase espectador. Os corpos voltavam a se encontrar frente a frente, boca a boca. As línguas dançavam em um ritmo que seguia a música tocada pelos membros, freneticamente, aumentando. Os dentes eram colocados no pescoço, uma mordida para que se evitasse soltar mais um grunhido, a respiração permanecia forte, mas era interrompida pelos lábios dela que sugavam a pele do pescoço dele, fazendo com que ele puxasse o ar pelos dentes. Ele começava a abaixar a cabeça e começava a lamber a pele nua da garota, beijando-a, mordendo-a, até que ele chegasse no meio dos seus seios. Tudo acompanhado pelo compasso de seus membros que permaneciam juntos, vezes mais longe os pelos, vezes mais próximos.

A inércia do lado de fora de opunha ao movimento que se fazia dentro, do barulho constante. Como os carros que tinham passado pelo sinal aberto, enquanto o motorista de olhos baixos esperava. A neblina na rua fazia com que tudo se misturasse em uma memória apenas, fazendo com que a frente do motorista o preto do asfalto fosse um precipício para suas lembranças. “O sinal abriu”, disse a companhia ao seu lado. 

Ele, como se votasse de um transe, olhou para a pessoa ao seu lado com lentidão, os olhos ainda baixos focalizavam o painel do carro, cheio de cores, verde, amarelo, vermelho. “Põe a luz alta, o farol baixo não está ajudando na neblina”, completou o acompanhante. Mais uma vez, o condutor parou o movimento com os pés, olhou fixamente os olhos do outro. O carro começava a andar lentamente, o sinal fechara novamente, dois carros começavam a cruzar a avenida cada um vindo de um lado oposto, freadas bruscas, corpos para frente e para trás.

Os três carros parados no semáforo. Dois faróis com faróis e um ao centro. Mãos ao volante inertes. A neblina enganou a todos. “Está tudo bem?”, perguntou o motorista. Com uma afirmação com a cabeça, o passageiro passou a mão pelas pernas, mostrando ansiedade. Os outros dois carros permaneceram um frente ao outro, dando sinais de luz para que o outro prosseguisse. “Desculpa”, era só o que ele conseguia falar ao engatar a primeira marcha.

O passageiro não era ninguém da outra noite. Na realidade, para o motorista, não era mais ninguém fazia algum tempo. Ao chegar ao destino do acompanhante, os dois se entreolharam, esboçaram algo indefinido pelas suas bocas. “Me diga o que você quer ouvir”, começou o acompanhante. Os postes amarelos não iluminavam tão bem a rua por causa da neblina, o carro permanecera ligado com os faróis baixos. “Cansei de sinceridade, cansei de ter segredos, cansei de enxergar”, sussurrou o motorista. Ambos permaneceram em silêncio, e após se despediram com um beijo carinhoso que selava os lábios. Fechando a porta, o passageiro apenas disse, apoiando-se na janela do carro: “Não pisque, a neblina está muito forte. Faróis altos, certo?”.

Enquanto se distanciava, quarteirão por quarteirão, o motorista via pelo retrovisor a pessoa que estava parada ainda em frente a casa, tentando reconhecer na neblina os faróis vermelhos do carro ficando mais distantes. O motorista precisaria ligar os faróis altos, mas tinha receio de enxergar mais profundamente na noite. Os faróis baixos durante um dia de neblina funcionavam perfeitamente, o que não se pode ver a olhos nus apenas pode ser sentido de noite.

Os dias começavam com uma neblina espessa no meio da multidão, dos carros. A necessidade de enxergar tudo não valia o processo de se ligar os faróis. A bateria estava acabando, o peso no porta-malas era grande. Com os olhos baixos, o motorista daquela noite começava a caminhar devagar pela manhã pouco iluminada, como se algo em seus ombros doesse, como se as buzinas, os barulhos dos motores fossem entrando na sua cabeça e se tornavam indiferentes.

“Me diga o que você quer ouvir”, relembrou o motorista da fala do passageiro daquele dia. “Algo que não machuque os meus ouvidos. Algo que a neblina esconda e que ninguém mais possa nem ver, nem ouvir”. Quanto maior é o esforço para se ver na neblina, menor é a velocidade percorrida, menos desloca-se. Quanto maior a neblina, maiores os mistérios, os murmúrios, as dúvidas do que pode estar bem à frente. Os dias pareciam mais escuros naqueles dias."

(Texto produzido dia 04/04/10)

domingo, 8 de novembro de 2009

Em jogo

"É o preço que se deve pagar quando há tanto em jogo.
E no jogo, não há limites, não há regras, não há segredos.
As regras, os próprios participantes devem fazer.
Os segredos, cada um deve guardar para si para proteger quem permanece do outro lado da porta.
E os limites. Ah, os limites! Quanto mais se aproximar deles, mais alto você deve percorrer. Em um mundo onde os limites são invisíveis, o jogo permanece sem uma linha de chegada definida e muito menos onde se espera chegar. Se é que se deve esperar. Ou se chega em algum lugar.

O preço para isso é a consequência do viver. Viver é andar no limite e fazer com que ele sempre esteja ali, porém ultrapassá-lo.
Viver é esquecer das regras mas deixar claro o que se deve fazer.
Viver é manter em silêncio o que você gostaria de gritar para todos ouvirem, e baixinho, no pé do ouvido sussurrar: é segredo.

Viver é um jogo.
A vida sem regras, sem segredos e sem limites não é vida.
Vida é saber de tudo sem saber de nada. Apostar errado sabendo que pode ser o certo. Correr riscos, cometer deslizes, ter dúvidas.

Afinal, no que você vai apostar hoje?"

(Texto produzido em 8 de novembro de 2009)

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Calor

""O que voce pretende fazer agora que voce nao teme mais a verdade?" Perguntou ela, olhando para os olhos dele cheios de lagrimas. Estavam os dois parados, respirando fundo, procurando algo em que se agarrar. Algo que os fizesse se mover em direçao opostas, mas que com a força do tempo, apenas voltavam mais e mais outras vezes a encontrar os olhos, que mesmo focados em algo, continuavam perdidos.

"Nao sei. Apenas eu tenho certeza que eu nao quero mais isso para mim." Disse ele, com uma das lagrimas dela escorrendo pelo pequeno rosto branco entre os cabelos loiros lisos. Seria dificil para ele sair daquele lugar onde estava, depois de lutar tanto pelo que queria. Agora que tinha em suas maos, perdia. Nunca seria o suficiente para ele. E para ela, nunca seria da mesma forma. Ele apenas queria se sentir mais livre. E ela mais segura. Confiança naquele momento nao serviria para nada. Nao adiantaria ele segurar as maos leves dela com as pequenas unhas pintadas com um esmalte vermelho, perfeitos em seus detalhes minimos. Nao adiantaria mais qualquer tipo de carinho que ele fazia no rosto dela com o polegar.

"Por que fizemos isso com a gente?" Sussurrou ela, em meio as lagrimas. Lagrimas que faziam com que ele fechasse os olhos para segura-las. Ao fechar os olhos, ele se lembrava daquela noite. As duas garotas morenas sobre o seu colo. As maos delas passando pelo seu corpo moreno, que aos poucos ficava arrepiado. Ele jogava a cabeça para tras, seus olhos viravam a orbita. As duas morenas continuavam a passar as suas maos pelo corpo dele. Uma delas enquanto passava lentamente a mao na nuca dele e depois pelo pescoço, beijava seu rosto. A outra, mais baixa e um pouco menos bonita que a primeira, fazia caricias circulares no peito do rapaz. Ia perto de seus pequenos mamilos até seu abdomem, em um movimento de ir e voltar, segurando a surpresa, o momento crucial.

"Voce nao estava aqui." Respondeu ele ainda de olhos fechados e com a cabeça baixa. Ainda conseguia imaginar o que as garotas lhe fizeram. Pouco a pouco, ambas se aconchegavam em seus braços, a mais alta que usava um pequeno colar dourado que combinava com seus brincos de argola e grandes, continuava a beija-lo na nuca, os arrepios tomavam conta dele. Ele a segurava pela cintura, apertando as coxas grossas dela, levantando um pouco da sua saia. A respiraçao dela tomava um ar pesado, rapido. A mais baixa saiu do colo dele, agora em pé tirava sua blusa, ficando apenas de sutia. Um sutia preto rendado. Olhando para o corpo do rapaz, se ajoelha e começa a desabotoar as calças dele. Ele, em um impulso, apenas tira os sapatos e os lança longe.

"Eu achei que seria bom para nòs esse tempo." Ela resmungou ainda com as lagrimas nos olhos. Ele estava ainda de cabeça baixa com a camisa que ela lhe havia dado em seu aniversario. No pescoço dele, ainda permaneciam as marcas daquela noite no parque. A menor das garotas começa a passar a mao pela perna musculosa e com alguns pelos dele. Ia perto do joelho e voltava perto da cintura. Ela apenas conseguia se focar no que estava por baixo da cueca que o rapaz usava. Uma cueca azul marinho. A outra começava no calor do momento a levantar sua saia, deixando com que as maos grandes dele tivessem mais area para segurar. Ela começava a morder de leve a orelha dele, ele procurava o rosto dela, nao encontrava, mas mordia o pescoço da garota.

"Sim, entao eramos livres." Aumentando o tom de voz, disse ele voltando a olha-la nos olhos. Nao tinha que ser dito nada, ela ja sabia do que tinha ocorrido aquela noite. Ele mesmo contou para que nao acontecesse enganos. Por mais que se evitem, enganos sempre acontecem. Ele, mais do que ninguem, continuava a se enganar. Sentada no banco, a mais alta das duas começava a beija-lo. As duas linguas se encontravam. Ambas estavam quentes, salivavam por aquilo. Ele ainda permanecia de olhos fechados, sua respiraçao procurava o instinto dos animais. Com força, ele puxou a garota que o beijava contra seu colo, colocando suas maos na cintura nua dela, alisando a pele macia e jà arrepiada da garota. Enquanto a outra, o alisava nas pernas, segurando em seguida o que preenchia o azul marinho que ele vestia. Com força, com desejo, fazendo com que ele respirasse fundo e rapidamente.

"Voce foi o unico para mim." Voltou ela a chorar. Com um movimento delicado, as maos dele enxugavam as lagrimas que escorriam pelo seu rosto, fazendo com que ela virasse sua cara e fizesse da sua mao um encosto. As duas garotas permaneciam ali, uma sobreposta a outra. Uma ocupada em beija-lo e apertar os musculos do braço dele. A outra seguava em sua mao, deslisava aos poucos as pontas do dedos no calor dele. Ele abria os olhos. Em um impulso, colocava novamente suas calças, se despedia rapidamente das garotas, ajudava a mais baixa a procurar sua blusa. Com pedido de desculpas, disse que nao poderia fazer aquilo.

"Mas nao deveria. Eu nao sou quem voce pensa." Disse ele tirando a mao do rosto dela, fazendo com que ela abrisse os olhos lentamente. Ela sentia vergonha de ter que falar com ele novamente, em passar por cima da vontade de seus amigos, da sua familia. A maior das duas morenas o pegou pela mao, o abraçou com força. Ele nao retribuiu o abraço, ficou imovel com os olhos abertos. Ela deslisou suas maos pelas costas dele, puxou a camiseta dele para cima e o beijou desejosamente o seu pescoço. Ele segurou as maos dela, esquivou-se e começou a andar, sem dizer uma sò palavra.

"Eu sei quem voce é. Tenho certeza quem é o homem que eu amei." Lembrou ela, irrugando sua testa delicadamente, contraindo os labios. Ainda ela lembrou-se de quando ambos fugiram para uma outra cidade quando o pai dela morreu. De quando entregou para ele o presente de um ano de namoro, uma foto que tiraram nas ferias, com a praia e o com o grande sol vermelho com tons de laranja se pondo ao fundo. De quando ele a surpreendeu no dia do aniversario dela vestido de um personagem de desenho animado. De quando, pela primeira vez, a vontade dos dois se uniu em uma noite com pequenas velas acesas, em uma cama grande e com um perfume dos instintos.

"Nao somos mais o que eramos." Engolindo a seco, disse ele. As lagrimas de ambos começava a escorrer. Um pequeno sorriso de canto de boca esboçava no rosto de ambos o que perderam. Entre as maos, as bocas de deixam levar. Entre as maos, a febre acaba. Entre as maos dadas, nenhuma palavra seria dita. Apenas um abraço apertado, com os olhos abertos, para as lagrimas escorrerem. Ficariam ali, abraçados até quando se sentissem livres daquele calor. O mesmo calor que fez com que ele procurasse onde se aquecer. O mesmo calor que fez com que ela se aproximasse do seu colega de faculdade. Em um abraço, ambos se juntavam para se separem. Entre as maos, perdiam o que tanto desejavam mas que agora nao era possivel mais segurar. Nas lagrimas, caiam por terra o que em tanto tempo atras lutavam para conseguirem voar. Amarrados um ao outro, nao seriam livres. Naquele abraço, se desvinculava o que mais atormentava: o desejo de ser livre. Eram livres, mas estavam unidos ali. A partir de entao, cada um procuraria seu ceu, seu sol, seu calor."


(Texto produzido dia 26/06/2009)

domingo, 14 de junho de 2009

Mais do mesmo

"Talvez seria a primeira vez que ele a via. Pouco a pouco, com o comboio a chegar, o coraçao dele batia cada vez mais acelerado. Com o amigo do lado, comentava sobre qualquer assunto banal para esconder as maos suadas e o nervosismo que afloravam a sua pele.

A mesma pele que depois de algumas horas de conversa com ela se sentiria mais a vontade ao ser tocada. Os risos começavam a ser incontrolaveis. A sensaçao de ja a conhecer de algum lugar o fazia relaxar, pouco a pouco. As maos suadas se apertavam, lentamente, uma contra a outra, para procurar o que dizer, para segurar as pequenas besteiras que dizia. Na realidade, ele começava a entender que quanto mais ela se divertia com ele, mais ele ficava a espera de algum toque, de algum contato fisico para que pudesse colocar a cabeça para baixo e depois levantar o olhar lentamente e ve-la se recompor do riso largo e bonito.

O mesmo riso que ao longo do tempo o faria estremecer, deixar para tras tudo que ja havia passado. O passado aos pobres e errantes pertencia. Naquele momento, eram ricos e estavam fixos ali. Um de frente para o outro sem saber o que fariam, que coisa comeriam. Os sorrisos nos olhos demonstravam o que ali acontecia. Nao era preciso mais nenhum gesto, nenhuma palavra, nenhuma forma de expressao velha ou inusitada. Era preciso apenas aquele olhar, aquela forma de se expressar, aquele olho no olho que apenas o quarto, com a lampada de iluminaçao amarela, moveis, cadeiras e estantes de cores afins, poderia entender. Nada deveria ser entendido a partir daquele instante. Os arrepios, o calor, o frio na barriga, o coraçao disparado seriam reflexos de apenas olhares que procuravam um porto seguro e de poucos toques na pele branca, macia, com um cheiro levemente adocicado como o sabor das pequenas frutas do bosque encontradas na primavera nos tropicos.

O mesmo sabor que quando ela pediu para que ele fizesse companhia na noite, ele recusou. As frutas do bosque possuem um aroma doce, um gosto leve e um leve toque acido. Como se as frutas soubessem que por serem tao desejadas, nao poderiam ser ingeridas por serem acidas. Nao amargas. Com a mesma rapidez que o acido da polpa entra em contato com a lingua viva, ele negava o convite. A cada "nao" pronunciado, seu coraçao denunciava uma taquicardia, leve e fulminante. Ela se despediu, disse que iria dormir. Ele apenas começou a arrumar suas coisas, pensando novamente em que parte do "sim" seria mais dificil de dizer.

O mesmo "sim" que as pessoas utilizam com tanta falta de vontade e assumindo culpas que nao sao delas. Pelo menos, nao mais. Ela se deitou e o chamou para se aproximar com seu livro de desorientaçao. Ela se deitou e ele apenas se sentou perto dela, na cabeceira da cama. Querendo ler o que ele escrevia, ela colocou seu rosto sobre as pernas dele. Para ele foi inevitavel a abraçar e fazer de seu braço um travesseiro um tanto quanto incomodo. Mas ela parecia bem naquele braço, os risos ainda continuavam, escondendo a forte vontade que ele sentia de abraça-la e te-la definitivamente em seus dois braços. Um seria pouco para o que ele sentia. As palavras soltas, o coraçao que saltava, os arrepios que lhe gelavam e aqueciam.

Os mesmo arrepios que ele sentiu quando se deitou ao seu lado na cama depois de muito renegar seus desejos. Os braços dela pareciam perfeitos naquele instante. Era o que ele queria sentir. Mas eram poucos momentos em que ambos sentiam o calor dos corpos. Ela se virou na cama, ele a encarou. Os olhos falavam palavras que nao existiam. Eles se aproximavam pouco a pouco, a respiraçao se tornava leve e pausada. Ela salivava, ele lambia seus proprios labios pequenos. Um sorriso envergonhado interrompeu a aproximaçao.

O mesmo sorriso que as pessoas continuam a esconder no dia a dia. Escondem por se sentirem mais vulneraveis a erros. Erros todos cometem, mas nunca se deve temer viver, sonhar por causa de um sorriso que ja nao se parece tao doce como era. Os milagres acontecem em pequenos gestos, em pequenas esperanças, em pequenas surpresas que nòs deixamos entrar na nossa vida. Os milagres sao como sorrisos singelos. Apenas acontecem se estamos abertos para que aconteçam. Ele segurou a mao dela, a olhou novamente nos olhos, as testas se encostaram, as respiraçoes se tornaram uma so. Os olhos serviriam apenas para que a escuridao trouxesse claridade. Que aos poucos, o instinto e vontade procurassem o encontro dos labios.

Os mesmos labios que se perguntavam para o espelho se ele estaria bonito hoje. Cada um sabe o que vale. Se alguem ainda nao encontrou a pessoa certa, de alguma forma para superar o peso, os labios serviam para questionar, conversar. O beijo seria apenas uma forma de selar um acordo entre ambas as partes. Estariam dizendo que para mim, voce me agrada. O comboio ja estava a partir. O coraçao dele estava mais leve, mais calmo. Apenas batia mais forte por saber que toda aquela espera, ainda deveria esperar. A pele, o riso, o sabor, o "sim", os arrepios, o sorriso, os labios. Todos poderiam ser os mesmos, mas naquela hora ele sò desejava mais um. A saudade apenas que ficava. E essa era a mesma de dias."

(Texto produzido dia 13/06/2009)

sábado, 21 de março de 2009

Corroi-se

"Fazia algum tempo que aqueles pequenos olhos nao tocavam o céu daquela maneira. Talvez eram de mentira. As nuvens cinzentas com formas variadas, o azul claro de profundeza relevante, os montes que pareciam ora perto, ora longe. Tudo aquilo tocado por um par de corneas. Profundas lentes. Nos montes, as pequenas casas expeliam uma mistura de fumaça e vapor pelas chaminés construidas por tijolos de cor branca, que por causa do tempo, ja haviam sido transformados em pedaços de pedras com alguns pontos verdes, cinzas, que mostravam a corrosao que sofriam.

Na realidade, tudo se corroi com o tempo. Pensava ele. Tudo. Animais se corroem. Pedras se corroem. Frutas se corroem. Pessoas se corroem. Ate pensamentos se corroem. Porem os sentimentos sao diferentes. Eles corroem primeiro o que esta em volta para, depois de dissolver tudo que ha por dentro, se auto corroer. Talvez os sentimentos se assemelhem a agua. O que corroi as pedras na praia, sao as ondas que insistem constantemente em bater. Quando uma fruta é mergulhada em um copo de agua, ela se dissolve, sem pressa, naquela lenta maresia de poucos minilitros. Corrosiva, a agua tambem se consome.

Apoiado com os cotovelos na grade da pequena sacada de azulejos brancos com riscos em forma de raios beges, ele permanecia com os olhos fixos na pequena imensidao que obtinha. Detalhe por detalhe, ele abria sua mente à procura de algo que se assemelhe, e que ja tinha visto. E paisagem parecida com aquela que via de vastos campos com pequenas porçoes de verde, casas construidas no meio do ambiente bucolico, pessoas que passavam devagar na pequena via proxima, vestidas com seus casacos mais resistentes ao frio que fazia, ele nunca tinha visto.

"O ceu esta colorido." Azul, vermelho, um leve tom de roxo e um ponto amarelo central. Analisava ele, apontando. O calor corroia a agua. Seja o calor natural que o sol pode dar, dia apos dia, ou seja o calor artificial de maquinas de aquecimento. De alguma forma, o calor fazia com que a agua fosse embora. Olhando para baixo lentamente, ele sentia vergonha de pensar essas coisas em uma altura dessa. Mexia os pés lentamente, primeiro o calcanhar ia para a direita, logo em seguida para a esquerda, como se estivesse enterrando debaixo da sola algo que quer esconder. As maos entrelaçadas seguravam com força o calor que sentia, contra o pequeno vento frio que fazia nos fins de tarde.

Por mais longe que estevam, as pessoas que passavam na rua pareciam proximas, quase como se ele pudesse estender as maos, toca-las por um instante, sentir o calor que saia de seu corpo com um abraço forte, caricias leves, um beijo devagar e molhado com os olhos fechados. Leves toques das maos nas costas largas, com um movimento de ir e voltar intenso, que aos poucos subiam até a cabeça e a segurava com força, puxando um pouco dos cabelos morenos e curtos. As maos faziam com que o movimento das linguas se tornasse mais proximo e intenso, os olhos se cerracem mais fortemente e os labios se abrissem, fazendo com que o contato, antes leve, fosse incandecente, como em uma fonte de calor.

Aquelas imagens o corroia por dentro. Ao fechar os olhos, pouco a pouco, como em pequenos traços em um album que é aberto e as paginas passadas rapidamente pelas pontas dos dedos, suas vontades ficavam maiores. A solidao e o medo de se fazer compreender pelos gestos e cuidados o tornavam fraco e pequeno diante da serena imensidao que a cornea tocava. A fumaça das casas se fazia mais presente de acordo com a queda de temperatura. Ali estaria a agua. O vapor era aquela pequena porçao de agua que o calor consumiu.

O sentimento por sua vez permanecia no ar. A agua nao pode ser corroida. Quando desaparece, é porque esta presente de alguma forma em algum lugar. O vapor, o gelo, os pequenos flocos de neve que começariam a cair do ceu. O que ele sentia nao poderia se auto corroer. Um dia vira vapor, mas na outra noite fria quando nao se podera mais ver a lua crescente no ceu, a chuva cairia e traria para ele novamente todos seus medos, receios e dor que um dia foram tragados pelo vazio do coraçao. O pequeno ponto amarelo central que iluminava o ceu tinha desaparecido. Sobravam rastros de sua luminosa existencia nas cores sombrias que, junto com as nuvens cinzas e esparças, desenhavam figuras sem nexo. Do outro lado, a pequena lua crescente começava ja a refletir a luminosidade que ela mesma nao possui. Ele permanecia ali, admirando aos poucos o que deveria ser consumido por ele proprio, mas nao conseguia.

Talvez isso nao pode ser consumido, pensavam seus olhos fixos. Como a agua e o sol, um dia retornam. Diferentes, mas retornam para dar calor ou esfriar mais aquela sensaçao de solidao que um dia o atormentou. Capaz de se fazer entender, ele virou para o lado e disse: “Acho que esta frio para ficar aqui fora, vamos entrar?” A outra pessoa passou em sua frente o olhou e balbuciou: “Faz frio aqui fora.” E antes de adentrar primeiro ao quarto, apontando para as nuvens que apareciam no horizonte, completou: “ Acho que a neve esta chegando!”. Apos que a outra entrou, ele admirou pela ultima vez o ceu, olhando para o lado inverso de onde seus olhos estavam fixos e onde o sol estava: a pequena lua crescente havia desaparecido. A solidao tinha entrado. E seus sentimentos, nem a agua corroia."

(Texto produzido dia 21/03/2009)

domingo, 11 de janeiro de 2009

Jardim de erros

"O que você faria se em uma tarde de chuva não encontrasse forças para olhar para o céu e sentir os pingos gelados e frescos escorrerem pelos pequenos vales do rosto? O que você faria se em uma noite tão quente você se cobrisse com seu cobertor mais quente, com medo dos seus sonhos?

Cada palavra, cada sonho, cada verdade escondida por detrás dos olhos camuflam a essência de cada pesadelo, de cada medo e, principalmente, de cada frase mal formulada que culminou em um erro. Todos nós erramos diariamente.

Erramos quando encontramos todos os clichês diante de uma situação complicada. Quando tudo que está a sua volta morre aos poucos e você apenas encontra a saída após a pequena pausa para o almoço, digerindo. Erramos principalmente quando não encontramos nosso caminho, quando somos forçados pela rapidez que a vida passa a deixar para trás o que realmente queríamos agarrar e lutar. Erramos, assim, por lutar muito e agarrar demais.

Cada circunstância, cada conseqüência, cada dificuldade. Todos erram por tentar procurar palavras para desenhar na parece branca da alma os pequenos vasos de flores quebrados. Um a um, racham ao tocar o chão duro, frio, sem vida. As flores de cores vivas, amarelo, vermelho, com pétalas delicadas e hastes verdes que indicam a colheita madura não podem sentir o chão. O chão já os pertenceu. Elas vieram dali, cresceram, desenvolveram e desabrocharam graças àquela imensidão inerte. Agora, o chão não as pertence mais.

Dessa forma, se a cada caminho que escolhemos, tentássemos voltar ao que éramos, ou ao que precisaríamos para sobreviver e enfrentar nossos medos, possivelmente estaríamos indo contra a força natural da vida em se transformar. As flores foram colhidas do pequeno jardim em que todas pareciam iguais e ao fim do seu percurso, quando o vaso finalmente quebra, uma a uma torna-se especial em sua pequena simplicidade.

As ações das pessoas não podem ser restauradas. Os sentimentos convertidos e palavras não podem ser recolhidas e não-ditas. O curso natural mostra-se impotente quando alguém decide-se ir contra tudo para realizar seu desejo. As poucas verdades que restam se tornam artificiais, preparadas para qualquer ação, já que o diálogo permanece pronto na mente.

Será que você consegue enxergar isso? Como pode ser dito que se vê, mas fingir que não e ainda sentir medo de poder reconhecer. Uma vez me disseram que o medo mais assustador do homem é conseguir enxergar o que ele poderia ter sido, o que ele foi ou o que ele nunca poderia ser. Talvez pior do que isso é temer o que ele sente. Ter medo do que há dentro de você torna-o fraco, sem salvação por ter apenas um caminho para escolher: a autopiedade.

O suspiro cansado depois de uma tarde comum mostra a flagelação. Amar demais é um erro. Amar pouco é dificultar-se. Amar é uma incógnita. O coração bate agora fora do meu corpo, sem o sangue vermelho e quente para me estremecer diante de rostos comuns. O frio que faz aqui dentro permanece preso por uma prisão. Seja qual for a temperatura externa ou provocada em mim, meu rosto permanecerá mudo. Os olhos fixos e a boca sem resposta.

O que cada pessoa sente? O que eu sentiria se soubesse que tenho algumas horas para decidir o caminho que tenho que tomar? Se quando olhasse para o corredor, de um lado visse o rosto que a mim parecia familiar e de outro uma grande paisagem com sombras desconhecidas ao fundo. O que fazer?

Errei em decidir um caminho. Se escolhesse o outro erraria também. Sempre erramos. Se cometermos um acerto com alguém, podemos estar errando com outrem. Ninguém nunca acertará. E eu nem quero. Teria que ser exatamente esse e não pretendo fingir mais. Se eu dissesse que as lágrimas que escorreram do seu rosto foram totalmente ignoradas, com certeza eu olharia para mim na chuva e repararia melhor nas gotas que escorrem pela minha testa, chegam aos meus olhos e se confundem pouco a pouco com o salgado da boca.

Deixem ir. Deixe com que ela vá. Porém acredite que não está abrindo mão de uma vida, de uma oportunidade. Acredite que aquele pode ser um novo fôlego que tomará após a pequena chuva que escorrerá pela sua pele. Se você conseguir sentir que houve alguma nuvem ou neblina em meio ao falso sol que brilhava na sua vida, você está pronto para mudar. Para sentir. Para conseguir agir e fazer algo por você. Para transformar-se em uma flor colhida que fora do jardim, se torna especial e única.

Você pode sentir isso? O que você faria? O que você vai colher no jardim? Em que você acredita: na grande força natural que faz as flores crescerem e se tornarem um simples jardim ou na pequena vontade que faz cada um único e especial pelo que há dentro das pétalas vermelhas que desabrocham e morrem lentamente?"

(Texto produzido em 11/01/2009)

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

A última carta

"Ele sentava finalmente para escrever a última carta que queria. Definitivamente seria a última, pensava. Mas a vida apenas estava começando, e aquela poderia ser apenas mais uma de várias que redigira ao longo da sua jornada.

Finalmente criava coragem de expor o que sentia, o que estava nas suas costas. O peso de uma difícil tarefa em ser o que não queria. Em ser o que nunca chegou a ser. Isso doía, os olhos no horizonte denunciavam a dor junto com as lágrimas que prometera nunca mais chorar. E não chorava. Elas eram contidas nos pequenos olhos que apenas esperavam uma segunda chance para ser feliz. Esperar era o suficiente, mas agora não era bom o bastante para saciar-lo.

A folha em branco dentro da gaveta entre outras, um simples papel que esperava também. Esperava ser pega e usufruída. Delicadamente, como quem pegasse um grande objeto de valor, ele colocava a folha que insistia em voar devido ao ventilador que estava ligado. O calor tomava o ar e fazia dele mais insuportável para quem esconde tanto dentro de um pequeno lugar: o coração. Ao mesmo tempo em que parecia querer explodir com as palavras, com os adjetivos, apenas queria ser um verbo, apenas que sentir, ser sentido, ouvir e ser percebido.

O que escrever afinal para alguém que já sabe de todos os verbos, de toda a intransitividade compatível entre amigos. Amigo. Palavra que sempre dói, como uma ferida que cicatriza dolorosamente no tempo. Machucado que foi aberto e custa a melhorar, porque sangra continuamente diante da imagem do espelho que grita: “amigo”.

As palavras demorariam para sair. Lentamente, uma a uma iam compondo aquela velha folha amarela do caderno de capa dura com um desenho de um mar e um sol. O tal paraíso que todos procuram, mas que ninguém consegue chegar. Não que ninguém consiga nadar nas águas azuis e cristalinas desse imenso mar refrescante que é a felicidade. Todos podem, mas poucos têm a oportunidade de ver o sol brilhar tão nitidamente que não lhes faça queimar a pele branca e que não cegue com a luz forte nos olhos claros.

A caneta mal posicionada entre os dedos acostumados com trabalhos duros, repetitivos, mal cabia entre a robustez dos traços que deviam ser fortes, porém leves. O pequeno risco azul traçava aos poucos o caminho suave que as palavras deviam ter, longe de toda aquela impressão dura, vazia e fria dos dedos, apenas seguindo o fluxo que o coração e a mente ensinavam a procurar. A leveza de sentimentos pesados é o que ele procurava. Seria pedir demais, tamanha contradição. Mas de forma simples, escrevia o que os olhos não poderiam mais enxergar, afinal os olhos agora de nada lhe servia. O que lhe abastece vem de dentro, detrás das pupilas dilatadas em meio às lágrimas.

Seria aquela a última de todas as cartas que ele enviaria para aquela pessoa. Já havia pensado no que escrever e previu que seria a única ser enviada naquele fim de ano. E seria essa carta, como tradição, já que ano passado ele redigiu outra que lhe tocou tão fundo que nem se recorda mais o que tenha escrito. Ainda bem, pensa ele em meio à vergonha que lhe toma os dedos que largam a caneta e instantaneamente seguram a cabeça. Os olhos fixos na folha se perdem em meio a tanta informação. E o que lhe confundia não é algo que está escrito. O que lhe confunde é o vazio, o branco.

Deixar de escrever, de fazer algo, abrir mão de muitas coisas já virou rotina para ele. Aos poucos, ao longo de dois anos, ele se transformara em outra pessoa, constantemente. Quando teve que cair em si diante da realidade: não adiantava se transformar, esconder suas dores, seus desejos e colocar um grande sorriso no rosto. Nenhuma maquiagem o faria ser o que ele realmente desejava ser. Erro, pecado. Sabia que faria tudo para ser feliz. Mas não sabia até que ponto agüentaria ir por uma causa perdida. Uma guerra que não lutaria mais, não por não haver forças, mas por não ter prêmio.

E o único prêmio que ele queria era ser feliz. A tão eterna busca pelo cálice dourado, o trevo de quatro folhas, a felicidade. Se contentaria, anos depois, em ser aquele mesmo ser frio, forte, uma barreira que apenas os mais fortes poderiam sobreviver. “Feliz” foi a única coisa que tinha escrito. Um dia lhe disseram que a felicidade é nada mais do que uma saúde perfeita e uma memória fraca. Boa saúde para que fosse firme, não perdesse mais noites de sono e os vícios fossem embora. Memória frágil para poder esquecer aqueles dias de sol, de chuva, as noites, as risadas, os abraços, os olhos, as mãos inquietas.

As mesmas mãos que agora permanecem inertes. Uma sobre o topo da folha e outra entre os cabelos castanho-claros. Aos poucos, as lágrimas lhe tomavam todo o coração, derramando uma maré azul-escura sobre os sonhos, sobre o dia em que se encontraram pela primeira vez, e o sol bem frágil em uma semana de inverno, deixando com que o frio faça sua parte pela Terra.

O imenso planeta, o diferente falar, os diversos verbos. Onde estaria aquela pessoa que ele poderia abraçar tão forte para que pudesse sentir todo o calor que o verão não é capaz de exalar? Onde estaria, mais uma vez, a outra parte da moeda da sorte que se quebrou sem ser notada nas caminhadas diante o jardim verde com os coqueiros? O prazer de se sentir protegido finalmente por algo maior que todos na Terra.

Com os olhos fechados e com a música ao fundo, ele pedia para que finalmente sua cegueira fosse embora. Abriu os olhos e permanecia ali, parado, com aquela imensidão branca diante de si. Sua cegueira, mesmo com os olhos vivos, insistia. Toda aquela brancura seria o céu? E ele um anjo, que não poderia amar, sem sentir vãos sentimentos humanos? Mas ele era humano, era um simples humano. Com erros, pecados e perdão. O perdão é dos homens.

As mãos encontravam novamente a caneta que insistia em escrever mais, sem saber como. Como, seria a chave para o recomeço. Antes era “o quê”, “por que”, “onde”. Agora era o “como”. Somente isso. Como recomeçar? Ele apenas queria amar sem ser de alguma forma impedido. E isso chegava terrivelmente ao fim. Como os outros finais em que o bom e o mau estavam juntos. Onde tudo parecia perfeito, uma vez que perfeição não existe para um simples mortal.

A caneta terminava sua parte, as palavras ali escritas estavam postas. Estava tudo bem claro. Finalmente, ele se afastava da mesa lentamente com os olhos sem reação, admirando o que tinha feito. As mãos, sobre as pernas, as seguravam de forma inconfundível: estava nervoso em escrever. O que escrevera era pouco diante do que queria falar. Mas não queria mais redigir nem conversar. Seria o fim definitivo para todos aqueles que deixam para trás seus problemas. Apenas descarregou no papel o peso que carregava.

“Feliz Natal”. Tinha escrito simplesmente. Tinha tirado de suas costas a felicidade e posto a sua frente. Sem desculpas para um possível final feliz, terminava como tinha começado: tremendo, palavra por palavra, passo por passo, sentimento por sentimento. Tirava de si mesmo a necessidade incessante de se fazer compreender, de ser aquilo que não queria mais ser.

O tal paraíso, com águas claras e o sol aquecedor, ainda não tinha achado, mas o sorriso singelo no canto dos lábios denunciava a satisfação de um desejo. Tinha encontrado na folha em branco o nada que veio e lhe tirou o sossego. Não teria que mentir mais sobre o que era felicidade. Um dia, doa a quem doer, ela chegaria devagar como a caneta que tocou lentamente a folha em branco, e, nela, lhe deixou aqueles escritos. Uma última carta, um último momento. A caneta que sente a folha aos poucos e que deixa finalmente uma marca. A marca de cada pessoa na vida de outras. A marca do que foi a felicidade na vasta brancura de uma simples folha de papel. Vazia."
(Texto produzido dia 22/12/2008)

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Ventania

"O vento naquela semana arrastava todas as folhas das árvores que caíam. Mal elas saíam dos galhos rígidos e fortes, a ventania dava-lhes a impressão de que voavam por conta própria, como pássaros que se deixavam levar pela força da natureza. A força natural que as levava longe de onde eram para cair e, assim, unidas fazerem um lindo tapete marrom, junto com as pequenas flores amarelas que desabrochavam da copa de uma árvore frondosa qualquer.

Ao mesmo tempo em que as folhas voavam altas, ela passava devagar, devaneando pensamentos, distribuindo reflexões sobre o que ela sentia. Os cabelos loiros lisos pareciam ter vida própria. Contra o vento, eles levantavam mecha por mecha, uma para cada lado, e a franja insistia em cair sobre o rosto abaixado que desconhecia os olhares em volta. Os olhos verdes vivos permaneciam fixos no chão, apenas alterando-se a visão para as direções em que os carros entravam na rua. O movimento da rua era imperceptível para ela, já que sua cabeça apenas pensava nele. Nas coisas que ele todos os dias fazia para ela.

Não sabia direito o que pensar. Ela gostava de outro, porém se sentia sozinha. Não queria entregar-se àquela pessoa que havia conhecido há alguns dias atrás. Ela relembrava o primeiro dia em que se encontraram no escritório em que ela trabalha. Ele era novo com seus olhos perdidos que procuravam um ponto de apoio. E ela não tinha coragem de se aproximar, pois sabia que ele estava se envolvendo com sua colega de seção. Cada dia ficava mais difícil se aproximar. Ele parecia inacessível, fechado, perigoso. O primeiro sorriso trocado no happy hour da empresa após algumas poucas palavras. Ela ria sozinha caminhando pela rua. Um riso pequeno, que mal mostrava os dentes brancos e grandes cuidados com o melhor dentista da metrópole.

Após aquela pequena sinalização de uma possível aproximação, ela não conseguia tirar aqueles olhos escuros profundos da cabeça. Olhos que ela demorou a encarar, e quando o fez, deixou de lado toda sua insegurança e sua timidez. Dia após dia, ela o esperava passar pelo corredor da sua seção, lhe dar um sorriso gentil. O que, com o passar do tempo, se transformou em um apertão carinhoso no braço e um sorriso mais aberto.

Os carros buzinavam freneticamente porque um cachorro começava a atravessar a rua. Todos passavam e tentavam fazer com que o pequeno cão preto ficasse no mesmo lugar. Ela também. Tentava fugir todo o momento da lembrança daquele rosto magro, moreno de sol, com pequenas pintas pretas por toda superfície da pele. Mas cada vez se tornava mais difícil. Ele aparecia mais e mais como uma imagem, sem nexo, sem motivo.

Passo por passo, devagar ao seu tempo, ela imaginava o que poderia acontecer. Os dois sentados no sofá novo comprado com prestações em uma casa de móveis nova na esquina do pequeno apartamento em que ela mora. Carinhos, carícias, mínimos gestos, sorrisos pequenos preenchidos com a imensidão do momento. Ambos assistindo TV abraçados. Uma das mãos dele acariciando o pequeno braço dela, em um movimento de vai-e-vem incessante. O outro ao mesmo tempo em que a segurava pelas costas, dava-lhe carinho simultaneamente. Ela apenas deitava-se sentindo o calor do corpo e, entre uma frase e outra, as risadas. Pouco que poderia ser dito para a grandiosidade do estar junto.

Pouco a pouco, as imagens na cabeça dela apareciam como se fossem pequenos flash-blacks que não aconteceram. Como o primeiro beijo que ainda não pode ser dado. Após algumas trocas de olhares, conversas durante a pausa para o café e o cigarro dele e o suco natural com bolachas água e sal dela, estavam praticamente íntimos. Já sabiam o segundo nome de cada, de onde vieram, onde se formaram e até o nome do hamster de estimação que ele tinha na infância. Ele é de uma cidade pequena em um estado vizinho. Ela nasceu naquela cidade, sempre viveu e se formou na faculdade pública que tem ali, onde conheceu o grande amor da sua vida. Amor que se casou anos após a sua formatura por ele ter engravidado uma pobre moça sete anos mais nova.

Ela voltava a pé para casa todos os dias. Fazendo chuva, fazendo sol. Às vezes conseguia alguma carona, mas preferia andar. Suas pernas precisavam se movimentar depois de horas de trabalho exaustivo no escritório da empresa de cosméticos. E nas últimas semanas, única coisa que ela pensava era se encontraria com ele no caminho, se ele a convidaria para visitá-lo no fim de semana. Se finalmente eles trocariam o sabor das bocas sedentas. As bocas vermelhas que sempre sorriam quando um via o outro. Eles sabiam como tirar uma gargalhada do fundo do peito quando um dos dois estava precisando. Ambos sabiam sorrir, porém eram vazios.

O primeiro beijo que seria escondido no banheiro da empresa. Quando ela estivesse saindo, ele a pressionaria para dentro, trancaria a porta, diria algumas palavras doces e cheias de sedução e finalmente a troca. As pequenas flores amarelas começavam a cair sobre a cabeça dela, porém o vento se encarregava de limpar seu cabelo. O pensamento dela era apenas dele. Ela só estava pensando de como seria bom se apaixonar novamente e esquecer seus precipícios e seus vales profundos e escuros.

Ela pensava se a comida preferida dele seria igual a sua, como comentaram em uma de suas curtas conversas. Se ela saberia preparar como ele gosta. Macarrão ao molho branco e brócolis. Os jantares que ela faria no apartamento que ganhou dos avós um pouco antes de morreram e que se encheriam de alegria ao ver a mudança de estado do grande espaço da solidão que ela sentia toda vez que chegava. Olhava para a mesa cheia de contas, para a cozinha com algumas vasilhas de comida pronta sujas em cima da pia. A sala cheia de móveis, mas vazia de presença e o quarto com a cama em que ela mal descansava.

Enquanto se aproximava das esquinas, ela imaginava como seria seus momentos íntimos. De como seria sua primeira noite com ele. O beijo e as carícias que cresciam, a música baixa ao fundo, o toque da pele nua e fria dela com o calor dele. Se deitariam e tudo seria feito com calma e respeito. Porém, quando ela parava nas esquinas, se lembrava de que ele não é completamente solteiro, afinal está saindo com aquela colega da seção, que ela ajudou ano passado quando a outra chegou à empresa e mal sabia como usar uma máquina de xérox.

Seria fácil para ela dizer logo o que sente, se ele já não sabe. Difícil seria ela agüentar a pressão de uma resposta negativa ou a possível competição que criaria. As palavras são inocentes tão quanto os sentimentos. Nunca se sabe por quem se apaixonar. Ela não está apaixonada, mas gostaria de saber por que passava todas as noites esperando ele aparecer, mesmo ela se dando conta de que ele não sabe onde mora. Olhava para o teto, abraçava firme seu travesseiro e aguardava. Apenas isso que fazia. Esperava.

Enquanto esperava, ela continuava andando sem rumo, mas com um porto seguro. Sua fortaleza, sua moradia intacta. Apenas quem poderia entrar era aquele que tinha os olhos profundos e que a fazia delirar silenciosamente. Não queria testar mais seus sentimentos nem desgastar-se mais. Queria apenas sentir como é ser sentida. Sentir é mais que um desejo, é um colapso que acontece na máquina cerebral por causa do coração. Prometera não tentar mais. Mas tentava se afastar de cada pensamento enquanto caminhava.

Ele deveria saber, amanhã após o primeiro turno, quando chegar, ela o chamaria para conversar. Olharia fixamente naqueles olhos, pediria para ele um pouco de atenção e diria que em tudo que ela faz, pensa nele. Todas as ligações no seu celular, pensava nele. Cada pequeno detalhe do seu dia, pensava nele. Ele a acharia tola já que ambos não têm nada, mas ela não agüenta mais guardar isso para si. Mas ao mesmo tempo, pensava que deveria preservar-se e calar-se diante dos fatos.

Os carros passavam velozmente enquanto ela quebrava todas as regras, atravessava a rua em um ritmo acelerado sem olhar para os lados sem esperar a resposta como em quase todos os momentos que passava com ele. Os olhos marejados não sabiam mais para onde olhar. Apenas seguiam o ritmo da natureza, que é preservar-se de pequenos danos, ciscos e poeira que poderiam embaçar a visão. Ela queria pouco. Pensava muito, refletia sem alguma pausa, imaginava abraços, beijos e o calor dos corpos juntos, se tocando interruptamente.

Ela queria apenas que todo aquele furacão dentro de sua cabeça acabasse. Ela desejava que ambos estivessem juntos e, no meio da noite quando ele se levantasse para ir embora, ela pedisse para que ficasse mais um pouco. Então, ele diria, com os olhos cansados, que não pode, e beijando levemente seus lábios e cobrindo-a, prometeria voltar amanhã. Ele iria embora e levaria consigo todos os pensamentos noturnos dela e, instantaneamente, ela dormiria. Assim a ventania lá fora não existiria mais."

(Texto produzido dia 06/10/2008)

domingo, 28 de setembro de 2008

Obrigação

"O tempo não me deixa mentir, muito menos esquecer. Estamos unidos de qualquer forma. Poucos dias, poucas noites. Muito para dar e muito a receber.

Não posso confundir mais amor e amizade. São dois opostos que se atraem pela permanência comum. Um do lado do outro. Companheirismo, alegria e saudade. Não nego a obrigação de me sentir livre, sem detrimento, sem necessidade em me prender. Queria ser livre, mas o homem na sua existência necessita de outra pessoa do seu lado para viver. Se não fosse assim, não casaríamos, não procuraríamos uma pessoa e muito menos nos apaixonaríamos. Se apaixonar por si mesmo todos os dias é como uma árvore, permanecemos inertes, fixos no mesmo plano.

Apaixonar-se por outra pessoa, procurar nas ruas escuras um ponto de luz, um sorriso aberto e braços que te darão calor é mais satisfatório. Você se sente útil, se liberta do lugar fixo em que foi plantado. Porém podemos sofrer com o corte dos seus galhos mais antigos que nos impedem de crescer.

É assim que me sinto. Impedido de crescer, de me apaixonar. Ainda não souberam cortar as arestas corretas. Não me apresentaram o novo que deveria vir.

O novo chegou. Abracei fortemente e me apaixonei. Senti o que há muito tempo não sentia. Senti calor, carinho, afeto... O respiro profundo dos corpos juntos e o sorriso mútuo após o beijo.

Não deixei esse novo partir. Segurei firmemente, como se fosse uma oportunidade única que eu teria. Mas me senti obrigado a me apaixonar.

Obrigações que deveria cumprir para poder ser feliz. Ou um pouco.

Não me obrigaram a nada. Não quis obrigar ninguém a se adequar a mim. O bom é perceber que árvores, folhas caídas pássaros e o olhar de duas pessoas se completam. Sentar no mesmo banco da praça, olhar do lado e sentir que aquelas árvores a nossa volta se movimentam lentamente com o vento da primavera, os pássaros que cantam recepcionando o sol que aquece o ninho feito com carinho, as folhas no chão começam a se mover com a leve brisa que bate nos rostos que se esquentam com os raios do sol, que por sua vez iluminam e colorem de um tom amarelado o olhar dos dois.

Sem sequer um toque, os dois sabem que estão ali um pelo outro. E não precisam fazer nada para demonstrar esse suspiro de inspiração. Não é necessário nenhum impedimento, nenhuma troca de favores. Tudo é implícito pelo sentimento que os une. Diferente das obrigações que deveria cumprir. Do pacto que me deixou sem a verdade, a realidade. Diferente de tudo.

Queria sentir pelo prazer de sentir. E não sentir prazer pelo prazer. Tenho medo de ter me perdido diante do meu passado e não saber o que deveria ter feito. Meus medos não me apavoram mais e não choro mais. Mas meus medos estão presentes em algum lugar escondido em mim que ainda preciso descobrir. Cada dia fica mais difícil. Escondi tão bem que os perdi, e na volta para a realidade, devo ter me perdido.

Perdi algumas partes do que eu era. Perdi partes que foram partidas, divididas e escondidas. Uma das partes que gostaria de encontrar é o que diz respeito à confiança. O contrário da confiança é o pacto de obrigação. Quando obrigamos alguém a fazer alguma coisa, não confiamos na capacidade dessa pessoa de se entregar totalmente. E quebramos cada vez mais a entrega plena e a confiança que cresce se torna um pacto de necessidade pessoal.

O companheirismo deixa de existir para dar lugar à pequena vontade de um rei que não existe. Um rei que domina um espaço que seria dele se ele não fosse tão autoritário e não fizesse de seus súditos um poço de obrigações.

Não quero ser obrigado a me prender a ninguém. Não quero ser obrigado a gostar de ninguém e muito menos ser fiel por apenas estar junto. Quero ser fiel por realmente gostar. Quero me prender naquelas lembranças dos dias frios e escuros que passamos juntos, olhando para o horizonte de imaginando um futuro não tão distante. Quero apenas sentir aquele calor saindo do corpo e sendo exalado pelo prazer do toque. Nada por obrigação.

Não quero construir pactos. Não quero ser obrigado a nada.

Obrigação que realmente nós temos é de confiar no que sentimos e sermos cegos para correr por uma via iluminada pintada de vermelho. Apenas devemos nos entregar."

(Texto produzido dia 27/09/2008)

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Unwritten

"Tenho ouvido muita música ultimamente. Aliás, tenho feito apenas isso para sanar o meu ócio e espantar da minha cabeça pensamentos improdutivos. Músicas novas de artistas que estão despontando no cenário internacional. Mas a música que realmente me fez pensar sobre o momento em que vivo agora é Unwritten, da cantora britânica Natasha Bedingfield, que foi lançada há alguns anos atrás. Essa música marcou toda a minha mudança de vida no início de 2006.

Uma cena especial, que vem a minha mente quando começo a ouvi-la, em uma espécie de flashback, aconteceu em um típico dia de primavera. Uma grande amiga minha e eu, andando por uma das rampas da faculdade que é revestida por aquela desbotada cobertura preta de plástico cheia de bolinhas. Indo em direção ao saguão, com os óculos escuros no rosto e de mãos dadas, subíamos cantando em voz alta o refrão: “Feel the rain on your skin!/ No one else can feel it for you,/ Only you can let it in!/ No one else, no one else/ Can speak the words on your lips./ Drench yourself in words unspoken,/ Live your life with arms wide open!/ Today is where your book begins… The rest is still unwritten!”. Sorridentes, felizes por estarmos ali. Sem problemas maiores. Éramos ainda crianças.

Eu não imaginaria quais problemas enfrentaria anos seguintes. Amor, amizade, desconfiança, raiva, desilusão. Era apenas o começo e o livro ainda não estava nem no primeiro capítulo.
Semanas, meses, semestres, anos se passaram.

Depois de algumas semanas sem escrever, desde minha última crônica Chorar, me vi em uma posição reflexiva novamente. Desta vez sobre essa música e eu agora. Em português, o título é Não Escrito. Mas o que na minha vida ainda não está escrito?

Durante todo esse tempo de descobertas, de novas páginas no meu livro, posso dizer que realmente a fase mais intensa foi essa em que vivo agora. Ou que vivia. Aquela que iniciava seu ciclo há exatamente um ano atrás. Uma fase onde pude viver, sentir, sonhar e realizar intensamente todos os planos que eu, um dia, imaginava para mim.

Mas ainda há muito que acontecer. Durante esse tempo sem escrever, pensei enquanto caminhava solitário nas férias, muitas vezes não tão só, que eu estava errado mesmo. E teria que admitir. Já admiti que estava errado, mas continuei errando. Tudo bem, é humano. Mas para mim não dava mais. Prometi não chorar, mas chorei. Prometi tantas coisas que nem metade eu cumpri.

Quero começar essa página em branco logo. Quero virá-la e começar a escrever coisas que me façam feliz de verdade. Sofrer também é sinônimo de amor, de paixão, de gozo. Quem não sofre por aquela pessoa que te faz dar um sorriso todas as manhãs ao abrir a janela e dizendo “bom dia”? Por aquela pessoa que faz uma surpresa em um dia vazio, completando-o? Por alguém que te liga e conta sobre os seus problemas, e você ouve, ajuda, orienta e consola, fazendo com que você se sinta realmente importante? Por aquela pessoa que ao cruzar com você na rua depois de tanto tempo te abraça tão forte que você pode sentir o calor dela invadindo seu peito?

Quem nunca sofreu por alguém que gosta? Sofrimento é como aquela poeira que permanece em um travesseiro de coração. Não se manifesta e é imperceptível. Mas quando o coração se mexe de forma brusca, todas aquelas partículas tomam conta do lugar, nos cegam e deixam tudo mais embaçado. Os olhos enchem de lágrimas, há um aperto no abdômen, uma respiração profunda. Espirro. Silêncio. Alívio em se sentir mais leve.

Estou deixando o sol luminar as palavras que eu não encontro. Deixar com que a própria vida encontre seus meios. Para que no rosto das crianças eu possa sentir o prazer de sorrir novamente e sonhar. Sonhar e colocar em prática tudo que sonho. O sonho impossível é aquele que ainda não pude sonhar.

Vou deixar a chuva molhar minha pele naquele dia de calor, sem me amedrontar com os raios e o vento. O vento leva para longe o que precisamos. Mas o que é nosso de direito sempre volta como em um furacão.

Não quero escrever uma nova história totalmente feliz. Felicidade é perfeição. E a perfeição é sem sal. Quero sentir. E sentir engloba tudo. Alegria, tristeza, tesão, saudade, agonia... Muito menos não vou escrever cartas de libertação. Porque nunca fui escravo e nunca me escravizarei. Libertar-se é trair sua identidade. Se procuramos alguém para nos libertar, é por que vivemos presos na nossa própria vida. Nos libertamos e nos prendemos novamente a uma outra vida.
Vou buscar a coisa mais distante de mim. Mas está tão longe que pode estar perto e provar não é diminuir a distância. É apenas saber saborear o que eu posso oferecer e o que as pessoas podem me oferecer.

Não ofereço muito, já que sou pouco. Mas pouco não significa disperso. Pode significar concentrado. Sou uma essência em que o pouco se faz muito, e o muito é obsoleto em dizer-se que seria pouco.

Minhas antigas tentativas estão na página anterior, estão presentes na forma com que e do que escrevo. Tentativas frustrantes de buscar uma perfeição que não existe nem em mim e nem em ninguém. Por mais que alguém tente escrever algum livro perfeito, para muitos pode parecer um simples livro de capa-dura e sem edição.

Vou escrever tudo o que quiser, e, em conseqüência, dizer tudo que eu pensar e sentir. O personagem que está incompleto ainda sou eu.

Sei disso porque compreendo que apenas eu posso deixar com que as coisas entrem e saiam da minha vida. Do meu livro. Apenas eu posso segurar e soltar as oportunidades que me são dadas e fazer delas as melhores escolhas. Compreendo que agora se eu não entender o que eu sinto, ninguém entenderá. Ninguém sentirá por mim.
Então deixe-me que sinta e que pegue a caneta na mão para rabiscar alguns contornos na página, anotar alguns personagens principais. Saber de todo o enredo, de toda a trama e para onde ela me levará com o que colocarei em prática, eu não consigo imaginar.

Apenas sei que todo o resto do meu livro, que começa hoje, ainda não está escrito!"

(Texto produzido dia 11/07/2008)
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