domingo, 11 de janeiro de 2009

Jardim de erros

"O que você faria se em uma tarde de chuva não encontrasse forças para olhar para o céu e sentir os pingos gelados e frescos escorrerem pelos pequenos vales do rosto? O que você faria se em uma noite tão quente você se cobrisse com seu cobertor mais quente, com medo dos seus sonhos?

Cada palavra, cada sonho, cada verdade escondida por detrás dos olhos camuflam a essência de cada pesadelo, de cada medo e, principalmente, de cada frase mal formulada que culminou em um erro. Todos nós erramos diariamente.

Erramos quando encontramos todos os clichês diante de uma situação complicada. Quando tudo que está a sua volta morre aos poucos e você apenas encontra a saída após a pequena pausa para o almoço, digerindo. Erramos principalmente quando não encontramos nosso caminho, quando somos forçados pela rapidez que a vida passa a deixar para trás o que realmente queríamos agarrar e lutar. Erramos, assim, por lutar muito e agarrar demais.

Cada circunstância, cada conseqüência, cada dificuldade. Todos erram por tentar procurar palavras para desenhar na parece branca da alma os pequenos vasos de flores quebrados. Um a um, racham ao tocar o chão duro, frio, sem vida. As flores de cores vivas, amarelo, vermelho, com pétalas delicadas e hastes verdes que indicam a colheita madura não podem sentir o chão. O chão já os pertenceu. Elas vieram dali, cresceram, desenvolveram e desabrocharam graças àquela imensidão inerte. Agora, o chão não as pertence mais.

Dessa forma, se a cada caminho que escolhemos, tentássemos voltar ao que éramos, ou ao que precisaríamos para sobreviver e enfrentar nossos medos, possivelmente estaríamos indo contra a força natural da vida em se transformar. As flores foram colhidas do pequeno jardim em que todas pareciam iguais e ao fim do seu percurso, quando o vaso finalmente quebra, uma a uma torna-se especial em sua pequena simplicidade.

As ações das pessoas não podem ser restauradas. Os sentimentos convertidos e palavras não podem ser recolhidas e não-ditas. O curso natural mostra-se impotente quando alguém decide-se ir contra tudo para realizar seu desejo. As poucas verdades que restam se tornam artificiais, preparadas para qualquer ação, já que o diálogo permanece pronto na mente.

Será que você consegue enxergar isso? Como pode ser dito que se vê, mas fingir que não e ainda sentir medo de poder reconhecer. Uma vez me disseram que o medo mais assustador do homem é conseguir enxergar o que ele poderia ter sido, o que ele foi ou o que ele nunca poderia ser. Talvez pior do que isso é temer o que ele sente. Ter medo do que há dentro de você torna-o fraco, sem salvação por ter apenas um caminho para escolher: a autopiedade.

O suspiro cansado depois de uma tarde comum mostra a flagelação. Amar demais é um erro. Amar pouco é dificultar-se. Amar é uma incógnita. O coração bate agora fora do meu corpo, sem o sangue vermelho e quente para me estremecer diante de rostos comuns. O frio que faz aqui dentro permanece preso por uma prisão. Seja qual for a temperatura externa ou provocada em mim, meu rosto permanecerá mudo. Os olhos fixos e a boca sem resposta.

O que cada pessoa sente? O que eu sentiria se soubesse que tenho algumas horas para decidir o caminho que tenho que tomar? Se quando olhasse para o corredor, de um lado visse o rosto que a mim parecia familiar e de outro uma grande paisagem com sombras desconhecidas ao fundo. O que fazer?

Errei em decidir um caminho. Se escolhesse o outro erraria também. Sempre erramos. Se cometermos um acerto com alguém, podemos estar errando com outrem. Ninguém nunca acertará. E eu nem quero. Teria que ser exatamente esse e não pretendo fingir mais. Se eu dissesse que as lágrimas que escorreram do seu rosto foram totalmente ignoradas, com certeza eu olharia para mim na chuva e repararia melhor nas gotas que escorrem pela minha testa, chegam aos meus olhos e se confundem pouco a pouco com o salgado da boca.

Deixem ir. Deixe com que ela vá. Porém acredite que não está abrindo mão de uma vida, de uma oportunidade. Acredite que aquele pode ser um novo fôlego que tomará após a pequena chuva que escorrerá pela sua pele. Se você conseguir sentir que houve alguma nuvem ou neblina em meio ao falso sol que brilhava na sua vida, você está pronto para mudar. Para sentir. Para conseguir agir e fazer algo por você. Para transformar-se em uma flor colhida que fora do jardim, se torna especial e única.

Você pode sentir isso? O que você faria? O que você vai colher no jardim? Em que você acredita: na grande força natural que faz as flores crescerem e se tornarem um simples jardim ou na pequena vontade que faz cada um único e especial pelo que há dentro das pétalas vermelhas que desabrocham e morrem lentamente?"

(Texto produzido em 11/01/2009)

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

A última carta

"Ele sentava finalmente para escrever a última carta que queria. Definitivamente seria a última, pensava. Mas a vida apenas estava começando, e aquela poderia ser apenas mais uma de várias que redigira ao longo da sua jornada.

Finalmente criava coragem de expor o que sentia, o que estava nas suas costas. O peso de uma difícil tarefa em ser o que não queria. Em ser o que nunca chegou a ser. Isso doía, os olhos no horizonte denunciavam a dor junto com as lágrimas que prometera nunca mais chorar. E não chorava. Elas eram contidas nos pequenos olhos que apenas esperavam uma segunda chance para ser feliz. Esperar era o suficiente, mas agora não era bom o bastante para saciar-lo.

A folha em branco dentro da gaveta entre outras, um simples papel que esperava também. Esperava ser pega e usufruída. Delicadamente, como quem pegasse um grande objeto de valor, ele colocava a folha que insistia em voar devido ao ventilador que estava ligado. O calor tomava o ar e fazia dele mais insuportável para quem esconde tanto dentro de um pequeno lugar: o coração. Ao mesmo tempo em que parecia querer explodir com as palavras, com os adjetivos, apenas queria ser um verbo, apenas que sentir, ser sentido, ouvir e ser percebido.

O que escrever afinal para alguém que já sabe de todos os verbos, de toda a intransitividade compatível entre amigos. Amigo. Palavra que sempre dói, como uma ferida que cicatriza dolorosamente no tempo. Machucado que foi aberto e custa a melhorar, porque sangra continuamente diante da imagem do espelho que grita: “amigo”.

As palavras demorariam para sair. Lentamente, uma a uma iam compondo aquela velha folha amarela do caderno de capa dura com um desenho de um mar e um sol. O tal paraíso que todos procuram, mas que ninguém consegue chegar. Não que ninguém consiga nadar nas águas azuis e cristalinas desse imenso mar refrescante que é a felicidade. Todos podem, mas poucos têm a oportunidade de ver o sol brilhar tão nitidamente que não lhes faça queimar a pele branca e que não cegue com a luz forte nos olhos claros.

A caneta mal posicionada entre os dedos acostumados com trabalhos duros, repetitivos, mal cabia entre a robustez dos traços que deviam ser fortes, porém leves. O pequeno risco azul traçava aos poucos o caminho suave que as palavras deviam ter, longe de toda aquela impressão dura, vazia e fria dos dedos, apenas seguindo o fluxo que o coração e a mente ensinavam a procurar. A leveza de sentimentos pesados é o que ele procurava. Seria pedir demais, tamanha contradição. Mas de forma simples, escrevia o que os olhos não poderiam mais enxergar, afinal os olhos agora de nada lhe servia. O que lhe abastece vem de dentro, detrás das pupilas dilatadas em meio às lágrimas.

Seria aquela a última de todas as cartas que ele enviaria para aquela pessoa. Já havia pensado no que escrever e previu que seria a única ser enviada naquele fim de ano. E seria essa carta, como tradição, já que ano passado ele redigiu outra que lhe tocou tão fundo que nem se recorda mais o que tenha escrito. Ainda bem, pensa ele em meio à vergonha que lhe toma os dedos que largam a caneta e instantaneamente seguram a cabeça. Os olhos fixos na folha se perdem em meio a tanta informação. E o que lhe confundia não é algo que está escrito. O que lhe confunde é o vazio, o branco.

Deixar de escrever, de fazer algo, abrir mão de muitas coisas já virou rotina para ele. Aos poucos, ao longo de dois anos, ele se transformara em outra pessoa, constantemente. Quando teve que cair em si diante da realidade: não adiantava se transformar, esconder suas dores, seus desejos e colocar um grande sorriso no rosto. Nenhuma maquiagem o faria ser o que ele realmente desejava ser. Erro, pecado. Sabia que faria tudo para ser feliz. Mas não sabia até que ponto agüentaria ir por uma causa perdida. Uma guerra que não lutaria mais, não por não haver forças, mas por não ter prêmio.

E o único prêmio que ele queria era ser feliz. A tão eterna busca pelo cálice dourado, o trevo de quatro folhas, a felicidade. Se contentaria, anos depois, em ser aquele mesmo ser frio, forte, uma barreira que apenas os mais fortes poderiam sobreviver. “Feliz” foi a única coisa que tinha escrito. Um dia lhe disseram que a felicidade é nada mais do que uma saúde perfeita e uma memória fraca. Boa saúde para que fosse firme, não perdesse mais noites de sono e os vícios fossem embora. Memória frágil para poder esquecer aqueles dias de sol, de chuva, as noites, as risadas, os abraços, os olhos, as mãos inquietas.

As mesmas mãos que agora permanecem inertes. Uma sobre o topo da folha e outra entre os cabelos castanho-claros. Aos poucos, as lágrimas lhe tomavam todo o coração, derramando uma maré azul-escura sobre os sonhos, sobre o dia em que se encontraram pela primeira vez, e o sol bem frágil em uma semana de inverno, deixando com que o frio faça sua parte pela Terra.

O imenso planeta, o diferente falar, os diversos verbos. Onde estaria aquela pessoa que ele poderia abraçar tão forte para que pudesse sentir todo o calor que o verão não é capaz de exalar? Onde estaria, mais uma vez, a outra parte da moeda da sorte que se quebrou sem ser notada nas caminhadas diante o jardim verde com os coqueiros? O prazer de se sentir protegido finalmente por algo maior que todos na Terra.

Com os olhos fechados e com a música ao fundo, ele pedia para que finalmente sua cegueira fosse embora. Abriu os olhos e permanecia ali, parado, com aquela imensidão branca diante de si. Sua cegueira, mesmo com os olhos vivos, insistia. Toda aquela brancura seria o céu? E ele um anjo, que não poderia amar, sem sentir vãos sentimentos humanos? Mas ele era humano, era um simples humano. Com erros, pecados e perdão. O perdão é dos homens.

As mãos encontravam novamente a caneta que insistia em escrever mais, sem saber como. Como, seria a chave para o recomeço. Antes era “o quê”, “por que”, “onde”. Agora era o “como”. Somente isso. Como recomeçar? Ele apenas queria amar sem ser de alguma forma impedido. E isso chegava terrivelmente ao fim. Como os outros finais em que o bom e o mau estavam juntos. Onde tudo parecia perfeito, uma vez que perfeição não existe para um simples mortal.

A caneta terminava sua parte, as palavras ali escritas estavam postas. Estava tudo bem claro. Finalmente, ele se afastava da mesa lentamente com os olhos sem reação, admirando o que tinha feito. As mãos, sobre as pernas, as seguravam de forma inconfundível: estava nervoso em escrever. O que escrevera era pouco diante do que queria falar. Mas não queria mais redigir nem conversar. Seria o fim definitivo para todos aqueles que deixam para trás seus problemas. Apenas descarregou no papel o peso que carregava.

“Feliz Natal”. Tinha escrito simplesmente. Tinha tirado de suas costas a felicidade e posto a sua frente. Sem desculpas para um possível final feliz, terminava como tinha começado: tremendo, palavra por palavra, passo por passo, sentimento por sentimento. Tirava de si mesmo a necessidade incessante de se fazer compreender, de ser aquilo que não queria mais ser.

O tal paraíso, com águas claras e o sol aquecedor, ainda não tinha achado, mas o sorriso singelo no canto dos lábios denunciava a satisfação de um desejo. Tinha encontrado na folha em branco o nada que veio e lhe tirou o sossego. Não teria que mentir mais sobre o que era felicidade. Um dia, doa a quem doer, ela chegaria devagar como a caneta que tocou lentamente a folha em branco, e, nela, lhe deixou aqueles escritos. Uma última carta, um último momento. A caneta que sente a folha aos poucos e que deixa finalmente uma marca. A marca de cada pessoa na vida de outras. A marca do que foi a felicidade na vasta brancura de uma simples folha de papel. Vazia."
(Texto produzido dia 22/12/2008)

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Ventania

"O vento naquela semana arrastava todas as folhas das árvores que caíam. Mal elas saíam dos galhos rígidos e fortes, a ventania dava-lhes a impressão de que voavam por conta própria, como pássaros que se deixavam levar pela força da natureza. A força natural que as levava longe de onde eram para cair e, assim, unidas fazerem um lindo tapete marrom, junto com as pequenas flores amarelas que desabrochavam da copa de uma árvore frondosa qualquer.

Ao mesmo tempo em que as folhas voavam altas, ela passava devagar, devaneando pensamentos, distribuindo reflexões sobre o que ela sentia. Os cabelos loiros lisos pareciam ter vida própria. Contra o vento, eles levantavam mecha por mecha, uma para cada lado, e a franja insistia em cair sobre o rosto abaixado que desconhecia os olhares em volta. Os olhos verdes vivos permaneciam fixos no chão, apenas alterando-se a visão para as direções em que os carros entravam na rua. O movimento da rua era imperceptível para ela, já que sua cabeça apenas pensava nele. Nas coisas que ele todos os dias fazia para ela.

Não sabia direito o que pensar. Ela gostava de outro, porém se sentia sozinha. Não queria entregar-se àquela pessoa que havia conhecido há alguns dias atrás. Ela relembrava o primeiro dia em que se encontraram no escritório em que ela trabalha. Ele era novo com seus olhos perdidos que procuravam um ponto de apoio. E ela não tinha coragem de se aproximar, pois sabia que ele estava se envolvendo com sua colega de seção. Cada dia ficava mais difícil se aproximar. Ele parecia inacessível, fechado, perigoso. O primeiro sorriso trocado no happy hour da empresa após algumas poucas palavras. Ela ria sozinha caminhando pela rua. Um riso pequeno, que mal mostrava os dentes brancos e grandes cuidados com o melhor dentista da metrópole.

Após aquela pequena sinalização de uma possível aproximação, ela não conseguia tirar aqueles olhos escuros profundos da cabeça. Olhos que ela demorou a encarar, e quando o fez, deixou de lado toda sua insegurança e sua timidez. Dia após dia, ela o esperava passar pelo corredor da sua seção, lhe dar um sorriso gentil. O que, com o passar do tempo, se transformou em um apertão carinhoso no braço e um sorriso mais aberto.

Os carros buzinavam freneticamente porque um cachorro começava a atravessar a rua. Todos passavam e tentavam fazer com que o pequeno cão preto ficasse no mesmo lugar. Ela também. Tentava fugir todo o momento da lembrança daquele rosto magro, moreno de sol, com pequenas pintas pretas por toda superfície da pele. Mas cada vez se tornava mais difícil. Ele aparecia mais e mais como uma imagem, sem nexo, sem motivo.

Passo por passo, devagar ao seu tempo, ela imaginava o que poderia acontecer. Os dois sentados no sofá novo comprado com prestações em uma casa de móveis nova na esquina do pequeno apartamento em que ela mora. Carinhos, carícias, mínimos gestos, sorrisos pequenos preenchidos com a imensidão do momento. Ambos assistindo TV abraçados. Uma das mãos dele acariciando o pequeno braço dela, em um movimento de vai-e-vem incessante. O outro ao mesmo tempo em que a segurava pelas costas, dava-lhe carinho simultaneamente. Ela apenas deitava-se sentindo o calor do corpo e, entre uma frase e outra, as risadas. Pouco que poderia ser dito para a grandiosidade do estar junto.

Pouco a pouco, as imagens na cabeça dela apareciam como se fossem pequenos flash-blacks que não aconteceram. Como o primeiro beijo que ainda não pode ser dado. Após algumas trocas de olhares, conversas durante a pausa para o café e o cigarro dele e o suco natural com bolachas água e sal dela, estavam praticamente íntimos. Já sabiam o segundo nome de cada, de onde vieram, onde se formaram e até o nome do hamster de estimação que ele tinha na infância. Ele é de uma cidade pequena em um estado vizinho. Ela nasceu naquela cidade, sempre viveu e se formou na faculdade pública que tem ali, onde conheceu o grande amor da sua vida. Amor que se casou anos após a sua formatura por ele ter engravidado uma pobre moça sete anos mais nova.

Ela voltava a pé para casa todos os dias. Fazendo chuva, fazendo sol. Às vezes conseguia alguma carona, mas preferia andar. Suas pernas precisavam se movimentar depois de horas de trabalho exaustivo no escritório da empresa de cosméticos. E nas últimas semanas, única coisa que ela pensava era se encontraria com ele no caminho, se ele a convidaria para visitá-lo no fim de semana. Se finalmente eles trocariam o sabor das bocas sedentas. As bocas vermelhas que sempre sorriam quando um via o outro. Eles sabiam como tirar uma gargalhada do fundo do peito quando um dos dois estava precisando. Ambos sabiam sorrir, porém eram vazios.

O primeiro beijo que seria escondido no banheiro da empresa. Quando ela estivesse saindo, ele a pressionaria para dentro, trancaria a porta, diria algumas palavras doces e cheias de sedução e finalmente a troca. As pequenas flores amarelas começavam a cair sobre a cabeça dela, porém o vento se encarregava de limpar seu cabelo. O pensamento dela era apenas dele. Ela só estava pensando de como seria bom se apaixonar novamente e esquecer seus precipícios e seus vales profundos e escuros.

Ela pensava se a comida preferida dele seria igual a sua, como comentaram em uma de suas curtas conversas. Se ela saberia preparar como ele gosta. Macarrão ao molho branco e brócolis. Os jantares que ela faria no apartamento que ganhou dos avós um pouco antes de morreram e que se encheriam de alegria ao ver a mudança de estado do grande espaço da solidão que ela sentia toda vez que chegava. Olhava para a mesa cheia de contas, para a cozinha com algumas vasilhas de comida pronta sujas em cima da pia. A sala cheia de móveis, mas vazia de presença e o quarto com a cama em que ela mal descansava.

Enquanto se aproximava das esquinas, ela imaginava como seria seus momentos íntimos. De como seria sua primeira noite com ele. O beijo e as carícias que cresciam, a música baixa ao fundo, o toque da pele nua e fria dela com o calor dele. Se deitariam e tudo seria feito com calma e respeito. Porém, quando ela parava nas esquinas, se lembrava de que ele não é completamente solteiro, afinal está saindo com aquela colega da seção, que ela ajudou ano passado quando a outra chegou à empresa e mal sabia como usar uma máquina de xérox.

Seria fácil para ela dizer logo o que sente, se ele já não sabe. Difícil seria ela agüentar a pressão de uma resposta negativa ou a possível competição que criaria. As palavras são inocentes tão quanto os sentimentos. Nunca se sabe por quem se apaixonar. Ela não está apaixonada, mas gostaria de saber por que passava todas as noites esperando ele aparecer, mesmo ela se dando conta de que ele não sabe onde mora. Olhava para o teto, abraçava firme seu travesseiro e aguardava. Apenas isso que fazia. Esperava.

Enquanto esperava, ela continuava andando sem rumo, mas com um porto seguro. Sua fortaleza, sua moradia intacta. Apenas quem poderia entrar era aquele que tinha os olhos profundos e que a fazia delirar silenciosamente. Não queria testar mais seus sentimentos nem desgastar-se mais. Queria apenas sentir como é ser sentida. Sentir é mais que um desejo, é um colapso que acontece na máquina cerebral por causa do coração. Prometera não tentar mais. Mas tentava se afastar de cada pensamento enquanto caminhava.

Ele deveria saber, amanhã após o primeiro turno, quando chegar, ela o chamaria para conversar. Olharia fixamente naqueles olhos, pediria para ele um pouco de atenção e diria que em tudo que ela faz, pensa nele. Todas as ligações no seu celular, pensava nele. Cada pequeno detalhe do seu dia, pensava nele. Ele a acharia tola já que ambos não têm nada, mas ela não agüenta mais guardar isso para si. Mas ao mesmo tempo, pensava que deveria preservar-se e calar-se diante dos fatos.

Os carros passavam velozmente enquanto ela quebrava todas as regras, atravessava a rua em um ritmo acelerado sem olhar para os lados sem esperar a resposta como em quase todos os momentos que passava com ele. Os olhos marejados não sabiam mais para onde olhar. Apenas seguiam o ritmo da natureza, que é preservar-se de pequenos danos, ciscos e poeira que poderiam embaçar a visão. Ela queria pouco. Pensava muito, refletia sem alguma pausa, imaginava abraços, beijos e o calor dos corpos juntos, se tocando interruptamente.

Ela queria apenas que todo aquele furacão dentro de sua cabeça acabasse. Ela desejava que ambos estivessem juntos e, no meio da noite quando ele se levantasse para ir embora, ela pedisse para que ficasse mais um pouco. Então, ele diria, com os olhos cansados, que não pode, e beijando levemente seus lábios e cobrindo-a, prometeria voltar amanhã. Ele iria embora e levaria consigo todos os pensamentos noturnos dela e, instantaneamente, ela dormiria. Assim a ventania lá fora não existiria mais."

(Texto produzido dia 06/10/2008)

domingo, 28 de setembro de 2008

Obrigação

"O tempo não me deixa mentir, muito menos esquecer. Estamos unidos de qualquer forma. Poucos dias, poucas noites. Muito para dar e muito a receber.

Não posso confundir mais amor e amizade. São dois opostos que se atraem pela permanência comum. Um do lado do outro. Companheirismo, alegria e saudade. Não nego a obrigação de me sentir livre, sem detrimento, sem necessidade em me prender. Queria ser livre, mas o homem na sua existência necessita de outra pessoa do seu lado para viver. Se não fosse assim, não casaríamos, não procuraríamos uma pessoa e muito menos nos apaixonaríamos. Se apaixonar por si mesmo todos os dias é como uma árvore, permanecemos inertes, fixos no mesmo plano.

Apaixonar-se por outra pessoa, procurar nas ruas escuras um ponto de luz, um sorriso aberto e braços que te darão calor é mais satisfatório. Você se sente útil, se liberta do lugar fixo em que foi plantado. Porém podemos sofrer com o corte dos seus galhos mais antigos que nos impedem de crescer.

É assim que me sinto. Impedido de crescer, de me apaixonar. Ainda não souberam cortar as arestas corretas. Não me apresentaram o novo que deveria vir.

O novo chegou. Abracei fortemente e me apaixonei. Senti o que há muito tempo não sentia. Senti calor, carinho, afeto... O respiro profundo dos corpos juntos e o sorriso mútuo após o beijo.

Não deixei esse novo partir. Segurei firmemente, como se fosse uma oportunidade única que eu teria. Mas me senti obrigado a me apaixonar.

Obrigações que deveria cumprir para poder ser feliz. Ou um pouco.

Não me obrigaram a nada. Não quis obrigar ninguém a se adequar a mim. O bom é perceber que árvores, folhas caídas pássaros e o olhar de duas pessoas se completam. Sentar no mesmo banco da praça, olhar do lado e sentir que aquelas árvores a nossa volta se movimentam lentamente com o vento da primavera, os pássaros que cantam recepcionando o sol que aquece o ninho feito com carinho, as folhas no chão começam a se mover com a leve brisa que bate nos rostos que se esquentam com os raios do sol, que por sua vez iluminam e colorem de um tom amarelado o olhar dos dois.

Sem sequer um toque, os dois sabem que estão ali um pelo outro. E não precisam fazer nada para demonstrar esse suspiro de inspiração. Não é necessário nenhum impedimento, nenhuma troca de favores. Tudo é implícito pelo sentimento que os une. Diferente das obrigações que deveria cumprir. Do pacto que me deixou sem a verdade, a realidade. Diferente de tudo.

Queria sentir pelo prazer de sentir. E não sentir prazer pelo prazer. Tenho medo de ter me perdido diante do meu passado e não saber o que deveria ter feito. Meus medos não me apavoram mais e não choro mais. Mas meus medos estão presentes em algum lugar escondido em mim que ainda preciso descobrir. Cada dia fica mais difícil. Escondi tão bem que os perdi, e na volta para a realidade, devo ter me perdido.

Perdi algumas partes do que eu era. Perdi partes que foram partidas, divididas e escondidas. Uma das partes que gostaria de encontrar é o que diz respeito à confiança. O contrário da confiança é o pacto de obrigação. Quando obrigamos alguém a fazer alguma coisa, não confiamos na capacidade dessa pessoa de se entregar totalmente. E quebramos cada vez mais a entrega plena e a confiança que cresce se torna um pacto de necessidade pessoal.

O companheirismo deixa de existir para dar lugar à pequena vontade de um rei que não existe. Um rei que domina um espaço que seria dele se ele não fosse tão autoritário e não fizesse de seus súditos um poço de obrigações.

Não quero ser obrigado a me prender a ninguém. Não quero ser obrigado a gostar de ninguém e muito menos ser fiel por apenas estar junto. Quero ser fiel por realmente gostar. Quero me prender naquelas lembranças dos dias frios e escuros que passamos juntos, olhando para o horizonte de imaginando um futuro não tão distante. Quero apenas sentir aquele calor saindo do corpo e sendo exalado pelo prazer do toque. Nada por obrigação.

Não quero construir pactos. Não quero ser obrigado a nada.

Obrigação que realmente nós temos é de confiar no que sentimos e sermos cegos para correr por uma via iluminada pintada de vermelho. Apenas devemos nos entregar."

(Texto produzido dia 27/09/2008)

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Unwritten

"Tenho ouvido muita música ultimamente. Aliás, tenho feito apenas isso para sanar o meu ócio e espantar da minha cabeça pensamentos improdutivos. Músicas novas de artistas que estão despontando no cenário internacional. Mas a música que realmente me fez pensar sobre o momento em que vivo agora é Unwritten, da cantora britânica Natasha Bedingfield, que foi lançada há alguns anos atrás. Essa música marcou toda a minha mudança de vida no início de 2006.

Uma cena especial, que vem a minha mente quando começo a ouvi-la, em uma espécie de flashback, aconteceu em um típico dia de primavera. Uma grande amiga minha e eu, andando por uma das rampas da faculdade que é revestida por aquela desbotada cobertura preta de plástico cheia de bolinhas. Indo em direção ao saguão, com os óculos escuros no rosto e de mãos dadas, subíamos cantando em voz alta o refrão: “Feel the rain on your skin!/ No one else can feel it for you,/ Only you can let it in!/ No one else, no one else/ Can speak the words on your lips./ Drench yourself in words unspoken,/ Live your life with arms wide open!/ Today is where your book begins… The rest is still unwritten!”. Sorridentes, felizes por estarmos ali. Sem problemas maiores. Éramos ainda crianças.

Eu não imaginaria quais problemas enfrentaria anos seguintes. Amor, amizade, desconfiança, raiva, desilusão. Era apenas o começo e o livro ainda não estava nem no primeiro capítulo.
Semanas, meses, semestres, anos se passaram.

Depois de algumas semanas sem escrever, desde minha última crônica Chorar, me vi em uma posição reflexiva novamente. Desta vez sobre essa música e eu agora. Em português, o título é Não Escrito. Mas o que na minha vida ainda não está escrito?

Durante todo esse tempo de descobertas, de novas páginas no meu livro, posso dizer que realmente a fase mais intensa foi essa em que vivo agora. Ou que vivia. Aquela que iniciava seu ciclo há exatamente um ano atrás. Uma fase onde pude viver, sentir, sonhar e realizar intensamente todos os planos que eu, um dia, imaginava para mim.

Mas ainda há muito que acontecer. Durante esse tempo sem escrever, pensei enquanto caminhava solitário nas férias, muitas vezes não tão só, que eu estava errado mesmo. E teria que admitir. Já admiti que estava errado, mas continuei errando. Tudo bem, é humano. Mas para mim não dava mais. Prometi não chorar, mas chorei. Prometi tantas coisas que nem metade eu cumpri.

Quero começar essa página em branco logo. Quero virá-la e começar a escrever coisas que me façam feliz de verdade. Sofrer também é sinônimo de amor, de paixão, de gozo. Quem não sofre por aquela pessoa que te faz dar um sorriso todas as manhãs ao abrir a janela e dizendo “bom dia”? Por aquela pessoa que faz uma surpresa em um dia vazio, completando-o? Por alguém que te liga e conta sobre os seus problemas, e você ouve, ajuda, orienta e consola, fazendo com que você se sinta realmente importante? Por aquela pessoa que ao cruzar com você na rua depois de tanto tempo te abraça tão forte que você pode sentir o calor dela invadindo seu peito?

Quem nunca sofreu por alguém que gosta? Sofrimento é como aquela poeira que permanece em um travesseiro de coração. Não se manifesta e é imperceptível. Mas quando o coração se mexe de forma brusca, todas aquelas partículas tomam conta do lugar, nos cegam e deixam tudo mais embaçado. Os olhos enchem de lágrimas, há um aperto no abdômen, uma respiração profunda. Espirro. Silêncio. Alívio em se sentir mais leve.

Estou deixando o sol luminar as palavras que eu não encontro. Deixar com que a própria vida encontre seus meios. Para que no rosto das crianças eu possa sentir o prazer de sorrir novamente e sonhar. Sonhar e colocar em prática tudo que sonho. O sonho impossível é aquele que ainda não pude sonhar.

Vou deixar a chuva molhar minha pele naquele dia de calor, sem me amedrontar com os raios e o vento. O vento leva para longe o que precisamos. Mas o que é nosso de direito sempre volta como em um furacão.

Não quero escrever uma nova história totalmente feliz. Felicidade é perfeição. E a perfeição é sem sal. Quero sentir. E sentir engloba tudo. Alegria, tristeza, tesão, saudade, agonia... Muito menos não vou escrever cartas de libertação. Porque nunca fui escravo e nunca me escravizarei. Libertar-se é trair sua identidade. Se procuramos alguém para nos libertar, é por que vivemos presos na nossa própria vida. Nos libertamos e nos prendemos novamente a uma outra vida.
Vou buscar a coisa mais distante de mim. Mas está tão longe que pode estar perto e provar não é diminuir a distância. É apenas saber saborear o que eu posso oferecer e o que as pessoas podem me oferecer.

Não ofereço muito, já que sou pouco. Mas pouco não significa disperso. Pode significar concentrado. Sou uma essência em que o pouco se faz muito, e o muito é obsoleto em dizer-se que seria pouco.

Minhas antigas tentativas estão na página anterior, estão presentes na forma com que e do que escrevo. Tentativas frustrantes de buscar uma perfeição que não existe nem em mim e nem em ninguém. Por mais que alguém tente escrever algum livro perfeito, para muitos pode parecer um simples livro de capa-dura e sem edição.

Vou escrever tudo o que quiser, e, em conseqüência, dizer tudo que eu pensar e sentir. O personagem que está incompleto ainda sou eu.

Sei disso porque compreendo que apenas eu posso deixar com que as coisas entrem e saiam da minha vida. Do meu livro. Apenas eu posso segurar e soltar as oportunidades que me são dadas e fazer delas as melhores escolhas. Compreendo que agora se eu não entender o que eu sinto, ninguém entenderá. Ninguém sentirá por mim.
Então deixe-me que sinta e que pegue a caneta na mão para rabiscar alguns contornos na página, anotar alguns personagens principais. Saber de todo o enredo, de toda a trama e para onde ela me levará com o que colocarei em prática, eu não consigo imaginar.

Apenas sei que todo o resto do meu livro, que começa hoje, ainda não está escrito!"

(Texto produzido dia 11/07/2008)
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